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Retalhos

O frio invade a casa. Portas e janelas fechadas. Poucas e esparsas goteiras. A noite e o dia parecem iguais... Sussurro teu nome no escuro Ciente que - longe daqui- Nunca sentirá o desespero da minha voz. E vou observando as casas, a rua, as multidões. Tudo tão seco e igual. Talvez estivesse adormecido sem perceber Ou vi qualidades esquecidas nas pessoas Enquanto caminhava vagamente despreocupado, Talvez à margem da tua presença Ou no silêncio quase voraz dessa casa. Nada disso importa- pois basta a noite chegar Olho o teu número de telefone, Ocorre a ideia de te ligar. Logo me dissuado... Tudo o que pareceu sobrar, Na tua voz e talvez também no olhar Foi o ódio. E eu não quero alimentar isso. Queria recomeçar mais forte... Mas vejo meus sentimentos fluídos Sólidos com a tua distância, Querendo transbordar líquidos de dor Mas recuam, pois eu e eles Sabemos bem Que você quer se esq...

Volátil

A noite adentra mansa e sem pressa Sobre os telhados das casas. Por cima das cores e luzes. Sobreposta a toda e qualquer solidão. Vejo que o sentido de algum cuidado Pouco vale quando o tempo voraz e efêmero Atinge o clímax de atenção... Vejo que os momentos das longas conversas Não tem o valor de qualquer beijo roubado Em alguma esquina vazia da cidade. Estou em silêncio,  e todos estão sós. Tudo ao redor é calmo. Como a angústia,  o medo - a incerteza.

Contestável

Amor não é moeda de troca. É entrega lenta, insegura e fatal Marejada de buscas inoportunas No inócuo tempo das horas passadas Além de possíveis e alteráveis rompantes De medos e incertezas seguras, Vontades e segredos pairando pelo ar. As pessoas seguem seus rumos, Indiferentes a quase tudo. Se afastam - mas expõem o oculto, O amor a ser cultivado Vai sendo logo fotografado Sem raiz ou fervor... Enquanto outros mostram Aquilo que lhes faz bem, Eu oculto o quanto posso A gata manhosa e sutil Que encanta com seus gestos e palavras, Dando ao céu milhares de cores, E infinitos sabores aos sonhos E à imaginação.

Absorto

Os olhos voltados pro chão. As teclas batidas num ritmo frivolo e estridente. Não sei se penso - fico absorto a olhar pro chão. As dores que não sinto nalma Ao mesmo tempo silêncios de reflexões. Cortes.  Mistérios,  sorrisos,  tristezas. Dores que não se refletem No tempo da primavera. O silêncio das quimeras Absorve as horas calmas. E me junto à multidão Que só passa e não se vê Absorta nas horas frivolas, Sem sentimentos certos e definidos, Apenas indiferentes às dores d'alma que sentem...

Tempo Temporal

O temporal - quase dilúvio - faz tremer o chão. A luz da sala desliga Enquanto milhares de descargas elétricas Despontam no chão. As horas caminham sinceras. Como a chuva que está caindo Ou o sono volúvel à noite. O tempo sempre à frente Aponta caminhos e novos ajustes ou pensamentos A quem faz o seu rumo - calado e só.

Circunstâncias

Mantenho os pés firmes no chão. Olhos fitos no horizonte.  Calmo. O dia se afunila e a noite entra, Ligeira e risonha como criança. As horas calmas assustam. Caladas demais,  aborrecem. Caminham  lentas como velhos cansados. O horizonte molda a noite E afasta a lua das estrelas Deixando a escuridão romper O longo clarão do espaço na Terra. É tempo de coragem e calma. Amor e cuidado consigo. Tempo de cautela e descobertas. Tempo de caminhar sem medo do futuro, Rompendo o casulo de solidão.

O Só

Os passos do só nas praças e parques Sugerem o medo, acompanham o olhar circunsp ecto , Anulam o passo cadenciado e simples, Apressam a fadiga do cotidiano acumulada. Caminha o só... Indiferente ou taciturno. Calado ou pensativo. Triste ou reservado. Nas praças e parques Segue o ritmo de um só.

Dispersos

Sem amores vãos.  Sem amarras. Livre, calmo, quase só.   Silêncio quase implacável. A noite adentra ligeiro E mais rápido passa. O teclado do computador gera os ruídos E confronta o escuro sem cor. Murmuro. Apenas para o meu pensamento. Adentro na miriade de medos e ansiedade. Aflito olho para os lados, olho o relógio. Onde está o sono? Se escondeu, mas a dor de cabeça pode ser que venha mais tarde. Os olhos no espelho vêem tantos poros Quango buracos na lua Nas noites em que está cheia. Os ouvidos não percebem O som das cigarras Ao redor da casa.

Ninguém solta o quê?

"Ninguém solta a mão de ninguém." Na prática, ninguém sequer encostou uma na outra.  Todos procuram se promover, Buscando respostas simples Frente à Hidra, que só cresce... Não é desmerecendo o  outro Que encontraremos o caminho. Nossos inimigos riem da gente. Comemoram as fraturas, Apoiam em silêncio a divisão. Os negros, mulheres e índios. Gays, lésbicas, bis e trans Também sofrem neste país. Pessoas pobres, com parcos salários, Convivendo com a miséria e o caos Morrem aos montes todos os dias. O que impede a unidade, afinal? A incapacidade de respeitar o outro Ou de baixar a guarda e ver Que ele é tão importante quanto eu? De sentir o que ele sente, dialogar, perceber... O sistema se alimenta da dispersão automática Que intelectuais e lideres iluminados Promovem em conluio com as mídias Jurando lutar por uma causa, Mas posando de heróis...

Atenção

Focos de atenção divergentes. Notícias aos montes. Palavras e fotos. Comentários e hashtags Enquanto o país queima e sofre. Bancos saqueados não só por ladrões De caixas e armas Mas por gente de bem Que há cinco séculos saqueia a nação E sempre diz aos pobres: Espere mais um pouco, A desigualdade é boa, Esperem o progresso Ou morram esperando a mudança dos céus. E como cordeiros em grupo Lá se vão memes e hashtags Como se a vida fosse A extensão das redes sociais.