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Poema do gostar em si

Gosto dos dias que nada prometem, Que nada propagandeiam, Das horas que se consomem tranquilas, Dos risos amigos e desinteressados. Gosto dos passos felinos andando pela casa, Gosto de não saberem como sou no dia-a-dia, Gosto de ser mais alguém Que curte a solidão por entender Que quase sempre é bom não ter alguma companhia. Gosto quando não percebo as horas Que se atropelam em sequência. Gosto quando sou um traço de poesia Em algum ponto do mundo, Sem buscar a grandeza, Sendo real e humano, Sendo sincero e tranquilo. Gosto de tudo isso, Ainda que às vezes falte um sorriso Que desperte e faça sentido Diante dos meus melhores sentimentos.

Dia, dia, nossos dias.

 Dia azul... Tempo quente. Sou solitário, calado, agindo frio, Cultivando um silêncio descontente... Dia calmo... As horas voam. Tenho saudade de dias idos. Os olhos miram o universo. A vida pede a calma De um semi eremita. Dia agitado... A ânsia de ser melhor Me assusta, me apressa, E a incerteza dos dias Me faz perder o sono Tumultua a paz e a poesia. Dia quente, tempo frio... Olho pros lados, Me vejo sozinho, Buscando novas referências Para bem mudar o destino E elaborar a minha verdade.

Sonhos, Vida, Realidade.

É engraçado como a gente corre Como a gente vive Sem jeito pra viver Como a gente sonha Sem tempo de sonhar. Estamos sempre imersos no caos Sonhando com dias azuis Dias tão quentes e incertos, Enquanto os dias cinzas trazem o frio Que envolve os corpos imersos em sono. Estamos sempre fugindo da gente Com medo de nossa própria solidão Da miséria de nossas escolhas Dos nossos modos desconfortáveis Que desmascaram qualquer ilusão Sobre quem somos Quando a platéia voluntária Não nos vê.

Sem Razão Aparente

 Os braços doem... A queda no dia anterior Foi apenas um episódio. Os dias seguem azuis e cinzas. Os olhos correm diante da escuridão. Observo os casais de longe, E chego à conclusão Que, talvez, nunca tenha entendido Plenamente o amor. Além da conexão, dos risos e choros, Das brigas e da paz, Há verdade no incômodo, Há certezas que se constroem sobre o nada, Há dores, cessão, entrega... E talvez por isso Mal tenha amado alguém, Perdido em saltos de intensidade, Entregas ilógicas, histórias que duram estações E depois, não mais... Nunca mais... É vaga a imprecisão do encaixe, Do toque que enerva, Do beijo que inspira e afaga, Do gesto que aflige e calma, Dos sonhos conjuntos (seriam mesmo?) Que se perdem no frio. E assim, é certo, Talvez não haja em mim A mais vaga certeza Sobre como é amar plenamente Um alguém que se escolhe Todos os dias No infinito da finitude.

Poema para um distante passado

Ah! Como transborda a saudade Das tardes idílicas De quando era só um jovem, De quando o amor era só um som, O toque de uma brisa. O tempo que perdia em olhares Sob a sombra das mangueiras E via a luz do sol aos poucos se escondendo Sorrindo como ria a vida outrora... Não era tão perdido quanto via. Era a glória de um menino Que ainda não conhecia Os limites que se impõem pelo caminho. Meus passos eram amplos e alegres Sob a lama que vivia docilmente Na campina que crescia indiferente Aos pés que ali pisavam... Oh, eram tão simples As noites de luar e poesia.  Eu era alguém perdido e descontente Sem perceber que aquele tempo Agreste e inconstante Cercado de sol, vento e chuva Era tudo o que ali Fazia sentido, Era o tempo e o lugar certo Para o amor e a felicidade Vividos nos desafios de todos os dias.

Os dias e a lama

Os dias repletos de lama E da chuva que cai, quase sem cessar, Me assustam com o receio do que não vi, Me prendem à incerteza do que virá. Os olhos procuram na fluidez dos dias Respostas pequenas para perguntas vagas... Os sonhos se prendem ao ritmo do chão, Os vários pensamentos compõem uma tortuosa estrada. Eu gosto de sorrir Mas não rio tanto. Observo quieto o que me ronda... Meandros em palavras Já não são mais a minha linguagem, Logo agora, que quase não converso nada com ninguém. ,

Digressões

 Alguma coisa Me faz pensar Nos passos dados Nas palavras e chances perdidas Nos erros contados E nos gestos incontidos. O tempo guardado Me encontrou perdido Vagando em marasmos De sentimentos distraídos E que já não falam mais, Seguem em silêncio Enquanto tento compreender O meio e o homem, Arrefecidos no mundo Que esmaga sonhos Insulta os planos E segue frio em meio ao calor crescente, Mostrando que a gente é inclemente Perante as dores alheias, Diante das almas que vagam no estio.

Poema Simples

O tempo povoado de frio, Do frio ao qual abandono Revigora as forças Para os dias de estio Enquanto os dias De cinzas se fazem azuis Infinitamente Enquanto o azul ilimitado De nossa limitada visão Encobre os medos dos sonhos Da vida em seu turbilhão.

Encruzilhado

Não me perco em palavras. Me ausento dos sonhos em silêncio. Já não me entendo, Pouco me conheço E se hoje me lanço Num novo e incerto salto - Sem respostas, recuo... Saio do caminho de nuances várias, Caminho no asfalto E não me perco mais Mais do que perdi. E já não sofro mais Com minhas armaduras de solitário Que me cabem E não permitem esperar respostas Que claramente não vem.

Vibração

Ah, se a gente pudesse... Pudesse sorrir de novo Diante dos olhos intensos Da bela mulher que desconheço. Moça negra, cabelos escuros, Com cachos tão belos Quanto um dia de chuva E a gente escondido Só ouvindo os sons do ambiente, E do tempo, os rangidos... Ah, se da História Essa mulher me contasse histórias Mesmo do que não viveu Ficaria atento ouvindo E tão leve, simples, sorrindo, Perderia meu olhar no teu, E inebriado de paz e sintonia, Ah, eu creio! Te amaria, Como ninguém jamais a amou Depois que te conheceu.

A Poesia e o Poeta

O poeta... Seria um escravo ou artesão? Preso às palavras Que liberta em transe Ou diante de muito esforço Ele sofre e respira tranquilo Sorri e chora em meio à vida Ruidoso silêncio Mistério e  turbilhão. Sua patroa, ou dona (?) (Ninguém sabe ao certo!) Segue abstrata Flui como rio diante do deserto... Palavras, artesanato, atitudes, sonhos. A poesia segue viva Na consciência, permeando a existência Dos homens que, dia após dia, Mudam sempre a vida E os rumos da história. E assim a poesia Salva vidas, transforma rumos, Faz a lida menos sofrida, Brilha o cinza, ferve o azul... Ela é livre, e borda o destino Do homem, que se fazendo menino Relembra de si para poder se entender.

Poema para a Chuva

Chove a conta gotas E, no entanto, tudo segue encharcado. As palavras esquentam o silêncio, O silêncio encharca as expectativas Que se dispersaram com o decorrer do dia. A mente inquieta corre... Precisa de mais calma e cores. Olha o tom cinzento dos telhados Ouve o som das folhas que caem E soltas, se misturam ao barro E moldam o quintal Com seu molhado chão. O dia preserva sua beleza De tempo frio e opaco E me convida a refletir Sobre os sonhos, desejos e cansaços.

Em Campo

Caminhando sobre a terra Cheia de brejos Repleta de lama Num lugar que respira a história Dinâmica e constantemente divergente Que mesmo sem um vestígio Do ar colonial de antigas casas da elite Tem um povo que ri  - Sonha e insiste Em viver no seu pedacinho de chão... Amo esse quilombo E esse cheiro de terra molhada. Amo o campo firme e vibrante... E amo a tortuosa, íngreme estrada. Gosto do tempo que se fecha E da noite que já se aproxima Do vento que encosta na testa Do sol que no campo se inclina E da vida que a vida atesta Na simplicidade quilombola e campesina...

Reflexão Bucólica

Há muitos dias O céu parece encoberto E quase não se vê a noite estrelada; O tempo escuro Traz o frio Amigo dos ares lentos Nas noites de março e abril. Hoje, não tive medo do dia. Hoje, andei devagar cada passo. Ainda que sonhos fujam E sigam escorregando das mãos, A vida transcorre -  Longo mistério levemente descoberto... Hoje, não quis navegar Na estranha melancolia De me agarrar a passados impossíveis, Sigo cioso pelos sonhos do futuro, Desejando o melhor dos mundos Ainda que siga sendo uma grande utopia Como um olhar e um sorriso Que possam apresentar novos caminhos E sonhos diversos para um novo eu.

Um Homem Fatigado

 O frio é companheiro, grande amigo. O tempo - pouco gentil - espreita e corre. É tanto sonho, tanto sono, cansaço e culpa Por não saber o que me deixa triste, O que me deixa fraco, o que me faz ausente. Já não sou uma criança, Embora às vezes assim me sinta. As crenças e desejos mudaram, Sonhos morreram, outros floriram Sem saber o porquê. E, mesmo assim, Faltam sinceros sorrisos E conversas duras, beijos reais, abraços singelos (Floridos anelos!) Que venham da mulher amada... - Mas quem ela é, meu Deus? Se já segui nessa estrada E já creio que sou o livramento de tanta gente... Em silêncio, penso, (Nem sei se sonho) Com um futuro estável, feliz, indiferente À validação sincera e inconsciente De minha solitária e discreta existência Por parte da triste e fria civilização.

O Homem

O homem calado Está aflito, ansioso, sobressaltado... Grita em silêncio, Sonha cansado. O homem aflito dorme, E sonha sempre aperreado, E clama sempre pelo futuro Tão sonhado e muito desencontrado. O homem solitário e tenso Já não sabe Onde se perdeu, Em qual porto perdeu o amor. Sorri automático, mede as palavras, Não se entrega à sutileza dos lugares, Constrói saudades enlatadas Prontas para serem arquivadas Num grande e velho barril.

Poemeto da Noite Fria

O frio amotinado Transpira como a noite que se inclina Perante a chuva Descendo como torrente intrépida. As horas frias Abraçam a solidão Encaram e encantam Meu olhar sincero Tempo objetivo - Histórias inóspitas, Momento incerto... O caminho borda silêncios, Rumina tranquilo Os medos do tempo ácido As bordas dos sonhos esquecidos.

Escrever

Sempre me preocupo com a forma. A forma com que escrevo E disponho sutilmente cada palavra. A forma com que noto e exponho Sonhos e vulnerabilidades. Não me importa Quem escreve mais bonito, Como dita as palavras, Como explica cada ponto. Bordo as palavras Mergulhando em mim mesmo, Buscando respostas ou fazendo perguntas, Usando um dom que a mim se apresentou. E assim, nem percebo tanto... Vou tecendo histórias, Rompendo meus meios silêncios, Amando a solitude da escrita, Escrevendo a cada dia Como se ainda fosse o primeiro.

Caminho

Caminho tranquilo. Caminho sozinho. O peso das escolhas Já não me aflige e machuca tanto. Caminho pensativo, Não tão machucado Quanto estive outrora. Já dou leves passos, Olho para os lados, Mesmo calado e compenetrado. Caminho silente. Caminho esperançoso. Já não caminho só, Mesmo sozinho. Me percebo em meio à multidão Que não me percebe E que não pode me entender. Caminho pensativo, Calado e tranquilo. E caminho sonhando talvez Com bons amigos, Silêncios e espaços diversos Para essa constante aventura Que é o simples ato de viver.

Terra em Ebulição

O planeta vive em ebulição. Gente sem casa, Gente sem comida, Gente sem escolha, Gente sem chão. A miséria grita. Em cada canto do planeta, Gritos abafados ecoam. Gente morrendo por golpes de Estado, Gente morrendo por ouro que nunca viu, Gente existindo sem viver, Gente sendo nada Mesmo respirando, Mesmo encarando a vida com a cabeça erguida. É tudo questão de mérito, dizem. Gaste menos, invista mais. Aceite a escravidão, Os massacres e genocídios, Golpes de Estado que trarão a liberdade do petróleo Escoando para terras estranhas Por pouco, enquanto sangra inclemente Um país inteiro e seu humilde povo. Os príncipes, lordes, burgueses, Todos eles sorriem Com a máquina mortífera Com amplos extermínios. Seus lucros aumentam. Que lhes importa o valor  da vida? Se o lucro não para hora alguma, E todo o seu dinheiro cria silêncios, Removem culpas, encobrem esquemas E vamos aceitando esses massacres, Não brigamos mais, não temos mais dilemas E assim naturalizamos não olhar o outro, Seus ...