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Amores Ao Vento

Eu chorei Eu escrevi Eu amei... E, no entanto, Dia após dia, Mês após mês, Ano após ano. Tive tanto desengano Que agora cansei. Olho o mundo colorido, Mas o passado dolorido Já me calejou, eu sei. Ao amar, não fui nenhum santo, Só que hoje em meu canto, Foi quando enfim pensei: Se com tanta mágoa e pouco pranto, Desapego e muito engano, Será que um dia mesmo amei?

Pra Você

Mais um dia vem nascendo... Como nascem os amores e os sonhos. Ou os sonhos não nascem, já são Antes que a mente os perceba? Galos ao longe cantam, Anunciam o novo dia de batalhas. Afligem quem se atrasa com o sono, Apressam quem tem tempo e ansiedade. Talvez tenha pensado vagamente Nos seus belos cabelos, Na sua calma e contida expressão. Em sua tez branca, e na indiferença Que mostro todos os dias Como válvula de escape Pro meu silêncio medroso e necessário, Para anseios vagos que a noite traz E se desfazem logo cedo, Ao primeiro clarão do dia...

É chegada a primavera!

As flores caem ao chão da pista seca De concreto batido e gasto. Os pássaros ressoam desde o meio da madrugada, Entoam cantigas no frio das três... Os olhos em frente ao espelho Notam uma cor diferente No olhar de quem corre Todos os dias contra o próprio tempo... Talvez uma solidão acostumada Em ser quem é sem medo... E que brilha na esperança de novas certezas, Caminhos e sonhos. As pessoas como sempre Passam ligeiro, correm e desviam Das descobertas de mais um dia azul, Distantes de tudo E próximas ao resto da multidão. No entanto, é primavera. Primado de luz e beleza, Silêncio, entrega, contemplação...

Gosto

Gosto quando acaricia os meus cabelos E sorri com um riso suave. E me fala o que não espero ou penso Com um jeito doce e sutil. Gosto quando conversamos e o tempo Amedronta a pressa e caminha Sorvendo instantes e desejos, Caminhando lentamente e construindo momentos. Gosto quando toco devagar no teu corpo, Fervendo de paixão e sem pressa, E vejo o teu rosto alegre e passivo, Doce e belo,  carnal e parceiro. Gosto de olhar nos teus olhos E neles me abster de flores sem espinhos. Toco os teus dedos e vejo o anel que te dei... Vejo me chamar de bobo, Olho para os lados e sorrio. Gosto de quando estamos juntos. Mas hoje - você está longe, E eu sozinho essa noite Fico à espera constante Desse dia - do teu regresso marcado.

Flores no asfalto e céu rosado

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Flores brancas caem dos galhos    [Adentram o chão de concreto e asfalto, Afogam o impacto do tempo passado, Perseguem o ritmo natural. Quisera eu entender a sua lógica Por algum meio pouco técnico - E ver na vida um ponto aberto Às interrogações que crescem,  espantam, afligem. Hoje o que temos ao nascer do dia Além de flores caindo ao chão, É um céu rosado de poesia, Melancolia - e solidão.

O olhar

O tempo se comporta calmo e são. O dia nasce limpo, seco, mas suave. O vento afaga num terno abraço. A vida caminha com poucos receios. Quem sabe as palavras assomem Numa manhã, de repente... E o mundo acorde tranquilo ou indiferente ao caos. Ou seria o olhar de quem vive? Transbordando de encanto e palavras, Recheando de amor as ruas antigas Com o olhar humilde e constante, Buscando o horizonte dos versos que vem.

O Hoje

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O dia se conecta à luz renascida. A noite se esconde com a lua em relance. O cansaço da insônia turva a visão E o dia adentra solitário e lento. As fugazes idéias de alguma chegada São apenas pensamentos que voam ao longe, Distantes e sonsos, como palavras ao vento Ou velhos sintomas de sonhos imaturos. Navega o tempo à procura dum caminho, Impõe ao silêncio a ação e o mistério, E esconde nas corridas do vento Recados que a boca não fala, Sorrisos e mágoas sufocados, Reféns das palavras não ditas E dos gestos nunca vistos...

A hora morna

As flores desabrocham em meio à hora morna. O barulho das ruas, o ruido das casas... Um novo dia em plena construção. As nuvens ligeiras recortam e trespassam No espaço azul do céu. O vento suave e torto Confronta o calor desse dia. O sol se levanta, os medos se escondem. E meus versos dispersos Curtos e indigestos, Despertam sentidos, deixando escondidos Vestígios de amor.

Medos e medições

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O vento da primavera Seco, certeiro, direto Afasta - na tarde vazia Os passos dispersos da multidão. Flores caem como mágoas diversas ao chão; São deixadas ao léu - como amores largados, Brilham e ressecam sob a luz do sol, Murcham em meio ao dia azul. As horas vazias de silêncio Na contemplação da beira mar. Afastam o silêncio inoportuno, Reconstroem a solidão contemplativa Com o medo de sofrer no intenso, delicado e incerto tempo.

Catirina (Poema 2)

Solto as amarras de antigas promessas e sonhos. Sigo a linha do horizonte e busco Palavras que descrevam meu medo descontínuo. Do cacto nasceu a flor Que na primavera surpreendeu. Abriu um sorriso e revelou O que meu coração nunca percebeu. Com um vago receio me pergunto Se a flor de cacto corresponde Ao impulso que tenho a cada olhar, À força das palavras sinceras, À paixão que nasce devagar, Ao silêncio inequívoco e eficaz. Restam dúvidas enquanto o dia nasce, A solidão repele E meu sentimento, incerto e insensato, Enfrenta tempo e espaço, E sonha com o que ainda não aconteceu.

Horizonte no Tempo

A árvore seca, firme e sem folhas Aguarda o tempo das flores azuis. O vento pusilânime enfrenta As horas de silêncio e quebranto. Sussurro às hordas do tempo Saudades dos sonhos de outrora. Não deixo a serenidade escapar Mesmo que as dores flutuem no espaço... E deixo o sol encontrar-me no dia, Caminhando sob o dia anil.

Mais um Dia

Os galos ansiosos Aceleram a chegada do dia, Enquanto - no quarto Murmuro palavras ao meu passado. O tempo,  afinal, corre fugaz. As horas de sonho se esvaem. Os olhos calmos e silenciosos Sussurram ao vento diversos lamentos, Enquanto a brisa fria das ruas Invade um recinto de poeta.

Trivialidades

Os livros na estante. A parede concreta e fria. A luz sob o telhado. O tempo contra o embalo. A mesa velha e cansada. O piso antigo e desbotado. Muriçocas seguem inquietas Seus caminhos de solidão. Balanço a rede estridente, Suada de sutis embalos, Enquanto a alma - inocente, Reclama o amor que acalma Pela vida serena e ardente Os dias de ventos suaves E noites de intensos mistérios.

O Contraste

Corre o sol sem poesia No dia inconstante e passivo. Esqueço o tempo do meu despreparo, Sonhando alto enquanto tropeço. Marcham as horas da história sentida E esquecida em um sutil abandono. Abono os medos incontroláveis, Contornando com o pensamento as dores de agora. Vejo cabelos balançando ao vento. Milhares de formas e sonhos Transitando na cidade vivida E embalada em saudades inquietas De modernos sistemas e modos.

Uma carta de Amor

O dia partiu mais tranquilo Quando as nuvens tocaram o mar. E o céu no horizonte azul Se fez rosa como o amor ideal. As ondas divagam em meio à maresia. A noite sutil caminha serena. Os passos diversos da multidão Impedem o silêncio no qual me deixo estar. Caminham suavemente formas alvas Que de relance - vem de encontro ao meu silêncio, E sai confusa,  na sua diafana dúvida Sobre esse amor recortado e doido que guardei. Não espero que um dia Você chegue e diga- que o recomeço Se faz abandonando o passado, Esse véu impuro de torpes mágoas, Ou que devo seguir ao teu lado, Erguer um futuro ao presente obscuro E ao passado de dor... Andei nas calçadas, olhei os casais nas praças desertas, Senti mil perfumes, vaguei pelas ruas. Mas nada seduz mais que o abraço Sincero,  marcado,  sentido, sonhado Em cartas de amor. São Luís, 24 de julho de 2018.

Dois Sóis

Veja a lama do mangue Clamando por atenção... Siga os passos das flores, Pise as dores do chão. Ouça o toque do vento. Vê que ele é feliz... Como o tempo inconstante Do instante - matriz. Olho o céu sem estrelas... Tão limpo, azul... Guarda tantas mentiras Escondidas, dispersas de Norte a Sul. Deixo o vento passar. Com sua brisa ligeira, Como a tua lembrança, sutil passageira, Nesse dia confuso e calmo, Como chá de cidreira Num café da manhã singular...

O Grito

Navego em palavras distopicas Em meio à chuva imperosa Que confronta as pedras de cantaria Enquanto sigo o tempo No dia cheio e impalpável. Não busco a noite impura, Enquanto sonhos marcados Desfazem velhas fissuras De olhares tortos e embriagados. Socorrem as horas de desalento A poesia em brisa refeita Enquanto murcham as dores do não ser, E enfrento a metafísica do tempo/espaço, Falando das dores que tive - e recriei. Chora o distante sussurro do dia. Gritam as horas de sonho e liberdade, Vejo o rebelde clamor de alegria, Compondo o panorama da noite na cidade. Encaro as ruas - velhas amigas... Desço a ladeira, ergo a cabeça, Encaro o futuro que desconheço, Rompendo com o medo - sem saber voar.

Mais

As lembranças não correm Com o passo ligeiro Enquanto a cidade constrói em silêncio Suas verdades de asfalto e concreto, Logo que um dia de sol se anuncia. Guardo os segredos dos meus velhos laços, Hoje tão fartos de serem passado... Talvez o dia azul fosse tudo O que preciso para manter o meu mundo. O silêncio dos dias vem calmo e sereno. Senta ao meu lado, Repleto de cansaço e dúvidas, Sentado num lugar qualquer, Sem saber no que pensar. Apenas respiro e confronto o tempo. Dores já tive,  mas agora Tenho um escudo Silencioso e inconstante: A serenidade impera enquanto Faço dos momentos mosaico E das lembranças retalhos Pra onde não quero voltar.

Fim de Noite

A madrugada solta e serena Não machuca os pés cansados Nem as expectativas murchas. Corro em silêncio no escuro E vejo o céu transitivo Buscando o raio mais puro, Pro dia mais instintivo. Tento seguir sem o cansaço. Vou tropeçando no escuro... Reconhecendo o espaço, Descubro o que procuro. A noite segue sozinha rumo ao oriente distante, Enquanto mantenho o olhar fixo Na sóbria contemplação do distante azul no horizonte.

Balaio de Sensações

O mistério no silêncio do dia Guardei nos meus gestos extremos. Basta a calmaria fazer frente Às sinceras mágoas que vivo; O caminho por si se refaz, E desfaz meu temor mais profundo. Deixo as horas do meu desencontro E mantenho meu passo seguro. Vigiando atento os lados, E buscando um modo obscuro, Corro atrás de suaves lembranças, Um recanto de doces histórias, Guardo o fio do amor perdido Na nulidade do espaço, Inconstante laço do que nunca me pertenceu.