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Basta

A lua não surgiu esta noite... Mas pouco importa - pois Ela sabe que a amo, E isso basta, Por mais que o silêncio Me entristeça E os meus olhos sintam  Vontade de dizer O que a boca não exprime. A noite passou veloz,  Mas pouco importa - pois O teu sorriso foi mais leve, Suas palavras singelas, Os gestos, naturais Como uma flor a cair Levemente dum arbusto. Mudaram as estações. Mas isso pouco importa Pois ela sabe que a amo, E a certeza mais incerta Que tenho é do amanhã. O agora basta neste momento, Sob o céu anil de uma noite incomum.

Calmo

Não quero seus olhos que fogem Dos meus em soturnos silêncios. Quero antes o amor verdadeiro Ainda sem certeza de existir, Distante do medo e da pressa, Caminhando num calmo jardim. Meço os passos sempre à procura De espaços no teu coração, Mas há sempre em mim Um freio A me ensinar uma nova lição... Triste espectro dum amor desencontrado, Percebido nos modos discretos E nas noites longas onde vejo apenas Nuvens e satélites na escuridão.

Efeitos

Foi uma noite sem luar... Mas pouco importa. Bastou o encontro que tive Após uma longa espera. Meus olhos reencontraram Os encantos da tua estranha beleza. Quem sabe  -  a noite tenha ajudado, Com o tempo correndo lentamente, Pois a vida - geralmente- sempre corre, Mas, contigo,  todo o universo some Como se nada existisse por si próprio. Palavras aleatórias se acercam de mim. Vagos receios trazem-me dúvidas; Fico distraído- e isso assusta, Nessa nova aurora de um dia comum...

Stop!

As mentiras contadas Nada mais representam. São palavras vazias, Proferidas ao vento. Não prometa - nem tente Criar novas estórias. O vento me trouxe a certeza buscada: Que nada represento... Ou sou apenas um grão De areia na imensidão da Praia Onde pisam os teus pés. Busquei em outra boca Uma resposta E encontrei milhares de possibilidades; Todas elas vazias, Assim como o meu sonho De estar junto a ti.

Tempos

Os carros passam velozes. A cidade segue um ritmo Distinto dos meus passos. A hora morna de silêncios Num sobrado à beira mar É rompida pelo som das buzinas Que incomodam... Esses olhos carregados de sono Voltados para o pano da mesa Guardam em mim a certeza Das nostalgias guardadas Nas ruas desse velho Centro, Depósito de solidões imensuráveis.

Recomeço

Passam segundos, passa o passado. Ouço passos; passou o ruído. Descompasso do tempo, Repasso o espaço do teu abraço,  Inconstante laço de um desamparo. Passam horas,  passam abraços.  Passam histórias,  voa o passado.  Refaço o começo,  Recomeço os passos... Refaço o tempo do esquecido espaço.  Guardo os passos que ainda não trilhei,  Enquanto os caminhos criam compassos,  Ritmos que guiam o descompasso meu. 

A Espera

Mário morava em um antigo sobrado na Rua da Estrela. Tinha cerca de quarenta anos,  mas sua reclusão fazia-lhe parecer um pouco mais velho. Vivia só. Na sua casa,  no entanto,  não havia quaisquer indícios de desorganização. Amigos,  não os tinha,  tampouco desejava alguém que viesse zanzar nos seus ouvidos. Engana-se quem pensa que,  a despeito disso tudo,  ele era extremamente insatisfeito com a própria vida. Naquele sábado,  abriu os olhos,  havia acabado de ter um pesadelo. Pegou o relógio,  na cômoda ao lado do espelho da cama. Já eram cinco e meia. Urgia levantar para buscar a sua filha. Tomou um rápido banho,  preparou um pouco de café amargo,  mastigou o pão de dois dias,  escovou os dentes. Novamente,  resolveu consultar o relógio,  o qual estava - agora - no seu pulso.  Ainda eram seis da manhã. "Joana ...

Devaneios

Em meus gestos abrigo Os mais calmos sorrisos De tristeza contida. Em teus olhos preciso Encontrar mil respostas Dos meus sonhos mais bobos. Vê... O tempo é atroz. Nunca perdoa o segundo que passa. Você percebe o que sinto No momento presente? Tua boca fala sozinha. O que me diz, afinal? Pede uma abraço amigo Ou o beijo de consumação? Eis que o medo aflige E os olhos tensos Desvio rumo a outra                                  direção. Que te importa se continuarei Trilhando sozinho, Quando o teu caminho Torto com pedras e espinhos Distancia-se do meu? Guardo o desejo De ganhar os doces beijos Que você nunca me deu... Se em algum momento, tiver a certeza do teu amor Talvez o dia tenha dois sóis, Confluindo num novo amanhecer.

A noite e a poesia

Espero o silêncio à noite Das multidões que adormecem. Busco ouvir os passos e gritos Indiscretos dos gatos vadios Nas noites de lua cheia. Noite serena que surge, Esconde seus medos vagos E enche de solidão Os corpos cheios de frio, Vivos, mas esquecidos Dos abraços, da partilha do pão. Noite, inquieta companheira Do insone poeta do nada, Refugia-se no escuro Do seu escuso destino. Vagas incertezas que cercam Divagações de um menino.

Espera

Meço os segundos À espera da tua resposta. Se olho os meus pés, Percebo o descompasso Destes meus rastros solitários, Sedentos neste espaço Da companhia dos passos teus. É alva como a flor mais pura, Se há pureza em uma flor. Distante como a lua errante, Intensa e reluzente; Uma luz no horizonte Das incertezas  que vivo. Igual aos teus cabelos, Talvez não hajam iguais. Tão pretos como o carvão, E brilhantes quanto o verniz... Eis que te peço um favor, Pedido do coração: Afasta essa tristeza Deste pobre aprendiz. Ajude a respirar  ares novos Quem já se sente cansado Por viver na solidão. São Luís,  16 de Setembro de 2017.