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Poema Brejeiro

Naveguei por um mar hoje tranquilo... Da ilha vim ao continente. Estou calmo, e o silêncio da noite cortado Pelas cigarras me diz que a paz Não se esconde dos sons. Os gatos correm em todas as direções. Motos ao longe, correm sobre a curva. A vida é doce, a vida é turva... As horas dançam num sarau. Olho em direção ao teto e sorrio. As flores caem no tempo escuro e frio Que traz os tons da madrugada. A noite parece abandonada... O tempo, no entanto, é gentil. E noto o tempo da solidão Em minhas palavras que cercam a noite. Eu sinto o frio do silêncio Que não assusta nem fere A quem perdeu o medo de se escolher.

Turbilhão

Parece que a gente se perde no tempo. E vê a vida tomando outras cores. E não se assusta tanto com os novos tons. E vai se habituando aos novos sabores. E vai observando os dias que passam. E passa junto a eles com sonhos e calma. E segue bem tranquilo os dias que vêm E repousa o olhar sobre o tempo que escorre. E já não percebo tanto receio De enfrentar o desconhecido Ainda que o universo ao qual percebo pertencer Fique um pouco distante do que hoje vivo. E amando cada versão De quem fui e sou Medindo passos para chegar no que serei Vou entendendo pouco a pouco O universo que sou - A vida e seus caminhos: Mistérios num turbilhão.

Passos

Há muito tempo O medo habitava todos os passos... Pisando em ovos Parecia nunca haver um modo De estar livre das expectativas. E a vida parecia sempre Um mesmo ciclo Mecanicamente repetido Diante das nuances do caminho. E a vida se fazia intensa. Ao mesmo tempo, pesada e vazia. A vida se fazia fria, Mesmo quando o sol banhava o dia. E de uma intensidade a outra, Sempre a busca por uma resposta, Para o alívio de uma dor Que não me cabia. E o esconderijo levantado pelas circunstâncias Era um espaço pequeno Em que já não cabiam Os novos traços de uma versão que vou Reconstruindo pacientemente dia após dia.

Constante

Habituado ao silêncio, Divagando acerca do tempo Não tenho mais medo do escuro Tanto quanto de esquecer quem sou, De onde vim, um eu Que ao longo do tempo, firme e paciente Construí, sem amarras e vergonha. Já me perdi algumas vezes Em personagens que não me cabiam. Já tentei muito agradar tanta gente, E nisso me anulei. Já não importam os outros Tanto quanto a paz da consciência Que se percebe tranquila. E já não vale a pena Comparar minha trajetória  Aos passos de velhos amigos. Seguimos traçados distintos, E amamos cada ponto de nossas estradas. E assim, vou seguindo calmamente. Se o amor estiver de braços abertos, Na forma da mulher que hoje me encanta,  A vida se faz ainda mais leve e branda E os sonhos sorrirão com o destino. Mas se isso não acontecer, As circunstâncias e o tempo vão me socorrer E seguirei sereno e constante Abraçando as surpresas do caminho.

Do Encanto

Os dias se sucedem sem perceber. Percebo-me encantado,  Não apenas com o novo cotidiano, Com o respirar uma nova paisagem, Mas com a presença suave Que habita em seu jeito Real, tranquilo e firme. Amor não é, decerto... Mas é certo que me encanto Com o jeito que observo Numa mulher real, E que, no entanto,  Ainda que lhe fale, Não consigo dizer o tanto Sinto-me te querendo, Sonhando, não com um instante, Mas com toda uma vida conjunta, Mesmo sabendo das diferenças Que trazemos ao longo de nossas bagagens.

Chuvas

Choveu e passou... As gotas dispersas no chão Sumiram com as lágrimas perdidas Há um ano atrás. Choveu e secou A saudade das palavras Do afeto fragmentado Do amor que se perdeu. Choveu e passou  - Para não mais voltar O medo de perder vagas lembranças, Gentis retratos de irrealidade. Choveu e silenciou A dor que me habitava. Quando olho o horizonte, Sorrio, pois sei que, ao amanhecer, Me deparo com a sutil e forte beleza Da mulher para a qual não me declaro, Mas que me contenta simplesmente admirar - Em silêncio, ou falando sem grandes pretensões. O sentir não é posse ou contato, Mas a certeza de vagar em território incerto E ainda assim, seguir confiante a intuição A doçura e a paz E não sofrer pelo que passou e se escondeu - Para nunca mais.

Poema do gostar em si

Gosto dos dias que nada prometem, Que nada propagandeiam, Das horas que se consomem tranquilas, Dos risos amigos e desinteressados. Gosto dos passos felinos andando pela casa, Gosto de não saberem como sou no dia-a-dia, Gosto de ser mais alguém Que curte a solidão por entender Que quase sempre é bom não ter alguma companhia. Gosto quando não percebo as horas Que se atropelam em sequência. Gosto quando sou um traço de poesia Em algum ponto do mundo, Sem buscar a grandeza, Sendo real e humano, Sendo sincero e tranquilo. Gosto de tudo isso, Ainda que às vezes falte um sorriso Que desperte e faça sentido Diante dos meus melhores sentimentos.

Dia, dia, nossos dias.

 Dia azul... Tempo quente. Sou solitário, calado, agindo frio, Cultivando um silêncio descontente... Dia calmo... As horas voam. Tenho saudade de dias idos. Os olhos miram o universo. A vida pede a calma De um semi eremita. Dia agitado... A ânsia de ser melhor Me assusta, me apressa, E a incerteza dos dias Me faz perder o sono Tumultua a paz e a poesia. Dia quente, tempo frio... Olho pros lados, Me vejo sozinho, Buscando novas referências Para bem mudar o destino E elaborar a minha verdade.

Sonhos, Vida, Realidade.

É engraçado como a gente corre Como a gente vive Sem jeito pra viver Como a gente sonha Sem tempo de sonhar. Estamos sempre imersos no caos Sonhando com dias azuis Dias tão quentes e incertos, Enquanto os dias cinzas trazem o frio Que envolve os corpos imersos em sono. Estamos sempre fugindo da gente Com medo de nossa própria solidão Da miséria de nossas escolhas Dos nossos modos desconfortáveis Que desmascaram qualquer ilusão Sobre quem somos Quando a platéia voluntária Não nos vê.

Sem Razão Aparente

 Os braços doem... A queda no dia anterior Foi apenas um episódio. Os dias seguem azuis e cinzas. Os olhos correm diante da escuridão. Observo os casais de longe, E chego à conclusão Que, talvez, nunca tenha entendido Plenamente o amor. Além da conexão, dos risos e choros, Das brigas e da paz, Há verdade no incômodo, Há certezas que se constroem sobre o nada, Há dores, cessão, entrega... E talvez por isso Mal tenha amado alguém, Perdido em saltos de intensidade, Entregas ilógicas, histórias que duram estações E depois, não mais... Nunca mais... É vaga a imprecisão do encaixe, Do toque que enerva, Do beijo que inspira e afaga, Do gesto que aflige e calma, Dos sonhos conjuntos (seriam mesmo?) Que se perdem no frio. E assim, é certo, Talvez não haja em mim A mais vaga certeza Sobre como é amar plenamente Um alguém que se escolhe Todos os dias No infinito da finitude.