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Folhas ao Léu

 Ando preocupado. Não com as folhas que caem E insistem em me transportar Para dias e anos atrás Quando era outro, Quando tudo parecia certo Mesmo imerso no caos. As folhas caem E me aflijo Com cinza - marrom do tempo seco Que enfraquece o verde da paisagem. O tempo corre e eu caminho... As folhas caem, E as flores dos ipês se vão, Enquanto o Flamboyant retoca o dia Com suas pétalas insanamente bonitas. As folhas caem, E a ansiedade vem crescendo Como a saudade do amor perdido, Enquanto acesso a esperança nos sonhos Como instrumento de coragem, força, luz e abrigo.

Dia Intenso

Foi um calmo e lento dia. Carregado, claro e sombrio... Foi um calmo e lento abismo De silêncio incontido. Foi um sonso e belo dia De saudades que não sei De amores que pensei - Seriam intensos e eternos. Foi um dia sombrio e lento... Carregado, calmo abismo... Sem um claro Amor, muita saudade  (Já faz um tempo!) De ter um amor intenso e incontido...

Inquietude

Ando inquieto, Porém não descontente. As flores sussurram a beleza das cores Que me inebriam E me fazem sorrir Diante do cotidiano fechado. Ando inquieto, Mas tranquilo Diante das flores que clareiam a noite: Ipês carregados jogam com o orvalho As flores que cobrem o chão seco e firme. Ando inquieto, Mas percebo as aves voando Alto, ao longe, Firmes, distantes, Compondo imagens Que parecem sorrisos E fazem lembrar  O fim de uma forte tempestade.

Ipês

Há dias que não pedem poesia. O toque das palavras Sobre o cotidiano. As paixões nas palavras, O sorriso inquieto diante da vida... E está tudo bem quando me fecho. Quando habita em meu silêncio A história De algo que ultrapassa o sentido E se esconde Onde está o coração, A razão dos desejos. Mas há dias em que o tempo florido Faz o coração pulsar diferente: Sério e apaixonado - sem saber pelo quê, Tranquilo e contente Contemplando as flores que caem do ipê Elas vão me consolando de todas as perdas Da falta de um olhar amigo e amante, Do melancólico ser não sendo Refém do tempo que não anda - Agora e ontem, só faz correr...

Rótulos

Sempre tive medo. Sou um depósito de medos. Caminho só, sempre observando detalhes - Até do que não vi. Caminho na solitude. Sempre foi assim, Até quando julgava viver de outro modo. O medo de estar só  E assim seguir. Hoje talvez seja esperança, Por entender o quanto uma solidão a dois, A cinco ou dez - Não cabe em mim. Fui intenso, Talvez não tão real quanto devia Até para mim, E por isso coleciono cicatrizes e memórias  Que hoje vivem bem escondidas. O passado é um amigo distante e ausente. O futuro, um incerto aliado. O presente é o que sei. E nele procuro respostas, Contemplo o horizonte  E me reconstruo Distante de mim.

Poetas

Navego sobre as palavras. Nem sempre elas ocorrem  Do melhor jeito, Na mais perfeita forma. Não sou eu quem efetivamente as domina... E sim elas que me possuem, E possuído em sua teia Vou bordando significados. Ser poeta... Não acontece com oficinas, Com técnicas. Há milhares de pessoas que versejam. Ser poeta é sentir a vida A finitude e as nuances da imperfeição Da existência... E mesmo assim sorrir Um riso manso e discreto. Ser poeta é caminhar no inefável, Receber a compreensão de alguém embriagado, Ser respeitado na invisibilidade do ser. É ver a vida sem tanta crueza, Ainda que imerso na realidade E ser inteiro na intensa vontade de ser fiel Àquilo que escreve, Aos mistérios de suas criações, O brilho intenso da vida Disperso em palavras...

A Plenitude na Paisagem

O domingo se vai... Daqui a pouco uma nova segunda Uma nova semana  Para correr no automático Como máquina - bicho - gente... Em horas  Novos episódios da labuta diária, Outros cansaços e detalhes. É tudo difícil, pesado e complexo. E mesmo assim  Na vista dos campos Em meio à natureza reluzente Imersos no caos Do calor intenso De ventos empoeirados e ardentes Em tudo que transita e surpreende  Há uma fagulha da presença divina, Um amor intenso, forte e presente. E esse amor puro, sincero, presente Que se manifesta em silêncio e detalhes No que vemos e também no que não conseguimos ver Transborda sobre a gente  E traz a coragem  Para enfrentar o medo impuro e inconsequente.

Silêncio, poesia!

Faz silêncio... Hoje ou em qualquer dia Poderia sair  Mas habito uma caverna Vivo num auto-exílio Fujo dos contatos Fujo da tristeza  De ser somente mais um. Faz silêncio  Onde habito Mesmo que ao meu redor O tempo e o caos se abracem. Eu me comporto e escondo Tranquilizo e me fecho. Nada lá fora faz sentido. Faz silêncio E nem a lua percebo... Às vezes a vejo no fim da madrugada rural Alta como sorrisos da juventude Que desconheço o rumo. Faz silêncio... Talvez eu seja amargo ou azedo E seja alguém meio velho e estranho Mesmo que ainda esteja novo e forte. Talvez seja um tolo, um sonso Ou um calado Que foge do barulho inconstante Do silêncio cômodo e distante De amigos que nunca foram meus.

PRIMAVERA

Meu passado me condena. Fui um homem de muitos amores  Fugazes e intensos Como um vapor  E a brisa do mar que atravessa A imensidão. Minhas histórias sempre eram tristes  Porque sempre buscava um ideal Mulheres que não existiam  E só coincidiam com a imagem À minha frente... Confundi amor com egoísmo Dos filmes bobos Que aprendi a gostar. E sendo egoísta  Só ouvia a mim mesmo  E tudo o que me interessava. E sempre repeti os mesmos erros Mas nunca olhei para trás Mesmo sabendo que o segredo De meu fracasso era o não querer lidar sozinho Com as intemperanças do meu ser. Segui sozinho um longo tempo  Jurando ter aprendido algo novo E de repente, você que sempre me ouviu  Estava lá e eu também. E eu sorri Para o sorriso que a vida me deu  Quando você quis me aceitar  E eis que eu mais uma vez Não entendi Neguei os seus problemas  Não quis admitir  O meu egoísmo travou nossa história  É mesmo assim  Segui sabendo que, dent...

POT - POURRI DO COTIDIANO

 Já não me ocorrem as mesmas ideias de sempre... Já não falo tanto de amores. O tempo corre insensível diante da gente E quase não percebemos As mudanças, os detalhes, Amigos distantes,  As surpresas do amor Que hoje me assustam Porque sempre parece que não foram feitas para mim. A gente cresce, Muda, os cabelos ficam brancos... Se percebe diferente, Em silencio, quase sempre ensimesmado, E no entanto, o tempo correndo Com as longas distancias E os frágeis laços humanos Me afligem, desconfortam, Deixam quieto e estranho. Vou vivendo o dia-a-dia Inquieto e em silencio, Pouco atento à paisagem Fechado, enquanto passo noites lendo Em calma e intempestiva solitude Sereno e cismando Diante de respostas Que apenas o incerto futuro Trará, Como o beijo da mulher amada Que ainda não sei aonde está.