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Hoje

O dia sem chuva. O sol firme. O sorriso recorrente. As horas reféns do espaço, Os sonhos tão perto - incertos Como as folhas que caem ao chão. O povo morrendo de fome. A fome da população Que não é só da comida, Cultura, saúde, educação, Lazer que não seja só quadra, Livros em todas as mãos. Os sonhos avançam no medo... Com a fome da população, Que não é só de comida, Mas de unidade, trabalho e libertação...

É chegada a primavera!

As flores caem ao chão da pista seca De concreto batido e gasto. Os pássaros ressoam desde o meio da madrugada, Entoam cantigas no frio das três... Os olhos em frente ao espelho Notam uma cor diferente No olhar de quem corre Todos os dias contra o próprio tempo... Talvez uma solidão acostumada Em ser quem é sem medo... E que brilha na esperança de novas certezas, Caminhos e sonhos. As pessoas como sempre Passam ligeiro, correm e desviam Das descobertas de mais um dia azul, Distantes de tudo E próximas ao resto da multidão. No entanto, é primavera. Primado de luz e beleza, Silêncio, entrega, contemplação...

Conjunto

O som dos passos na escada. Pessoas seguem inconstantes Na rua, falando alto na madrugada. As horas passam lentas e tontas Sobre a noite clara e limpa Com a lua cheia. Motos e carros velozes Na quase calma madrugada Correm sem medo ou pena, Assustam e despertam quem sonha Enquanto caminham secos e concretos. Lá fora as estrelas dão voltas sutis Ao redor da Lua. E as pessoas desatentas não percebem O valor da calma doméstica Na regência noturna do imperioso luar.

Palavras e Omissões

Malditas as palavras De quem balbucia em favor Duma suposta unidade E não tem humildade Nem coloca os pés no chão. Malditas as palavras Que saem dos omissos, Criticando quem se posiciona, Mas sem dar um passo Em qualquer direção. Maldita a falsa paz De quem não vê os problemas De todos assomando a porta Ou finge não saber E vai à festa toda semana Sem motivo algum pra festejar. Maldito seja o medo conivente Ou o gostar submisso Que prendem, acovardam, enfraquecem os laços... Maldito seja o olhar diferente Pela cor da pele ou posição social... E mais maldita é a crença De que tudo se resolve com meias inclusões Vagas reformas Sussurros distantes na busca por igualdade. Maldita toda a desigualdade E o que a gera também, Quando pessoas morrem de fome, E outras - fartas e prepotentes Palitam os dentes e sonham Sempre em ter mais poder, Mais dinheiro, reinando sobre as leis, Os son...

Vagas

A noite tão clara, A lua distante... Miro o vago horizonte Num tempo incerto e esguio. O vento caminha lentamente Como idosos subindo ladeiras. A solidão bate calma Sobre o ombro, Mas não assusta... Vem junto o tempo, E no entanto, não consegue remontar ao passado. Noto as pessoas nas ruas Tão juntas, alheias... Deixo a vista voltada pro chão, E sigo apenas contemplando o vazio Após um dia cheio de luz.

Perspectiva

Braço apertado. Palavras de coragem. Mas não de auto ajuda, apenas conselhos. Olhos voltados pro céu, Tão cinza e seco Como o olhar felino e feroz De animais que encantam sem querer. O medo sempre assoma, Mas quando vem, só posso enfrentar. Não ceder, sucumbir, chorar. Avançando os dias sobre a torta estrada Desse mundo desigual e perdido. Não é com medo ou conformismo Que enfrento as horas que assomam... Mas caminho sem saber Onde chegar Com o meu passo longo, Compassado e decidido.

Domingo

É domingo, mas os galos cantam... É mais um dia de um tempo azul. Mais um dia sem vestígios de orvalho, Seco, taciturno, mas leve e sutil. Bem-te-vis entoam a sua cantiga Ao longe, lá atrás... Paira sobre os homens Uma solidão de gelo... Ou de ferro, talvez? Circunspecto, olho e finjo não observar A vida que vai e vem Se transporta  de várias formas Se assusta e contradiz Nesse espetáculo de luz e sombras.

Sobre Portos e Mísseis

São palavras ao vento que dizem Quando falam que defendem o povo. Pura retórica quando dizem: Estamos preocupados com o futuro do país. Cães traiçoeiros, quem lhes ensinou a covardia? O jeito sutil e manso, o olhar terno e comovido... Sempre dizem que são diferentes, Mas entregam o destino do seu povo Nas mãos dos impérios mundiais. Pra China se dá o Cajueiro... Olha que lindo... Em alguns anos mais um porto, Um novo símbolo da nossa dependência. Soja, soja, minério, e o povo minguando nas ruas da cidade, Como os migrantes ignorados e esquecidos. Alcântara fica com os ianques... A princesa dos olhos das potências mundiais Vira um apêndice da guerra e da violação Dos direitos de qualquer país... E mais uma vez, lavam as mãos. E demagogos dizem: nós apoiamos o desenvolvimento. A mesma conversa que nunca mudou de fato a vida da gente. E dizem : somos comunistas. Mas s...

Mais um poema da noite

Palavras assomam e fogem... A noite limpa e serena Caminha sutil no silêncio Das horas atônitas e sombrias. O sono assoma e foge... No meio da madrugada O silêncio que quase fala. Os olhos sem sono e exaustos. O tempo caminha tranquilo. As horas em simples compassos De tempos sempre limitados A cada segundo passado.

Claro

O silêncio na madrugada... A noite sutil não me assusta. Os olhos e ouvidos atentos Insones, pensativos e sós. O futuro sempre é incerto; Mas o medo é certeiro e sagaz, Como um dia de chuva em março, Como o sol pleno e forte em setembro... Navego sobre os sonhos e quase bloqueio O planejado trajeto construído por um ideal Pouco lembrado ao longo do tempo Por tantas noites quebradas ao meio. Olho o teto... Ouço o vento. O galo lá fora quase aponta um novo dia. Daqui a pouco os operários caminham. Os comerciários também. A labuta alienada não para. Isso aflige e sufoca. Fico à espera do novo dia, De suas histórias e possibilidades. Com sua exploração cotidiana Da vida e dos sonhos possíveis, Com o medo impróprio e antecipado Do futuro que não s e anuncia.