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Tempos

Os carros passam velozes. A cidade segue um ritmo Distinto dos meus passos. A hora morna de silêncios Num sobrado à beira mar É rompida pelo som das buzinas Que incomodam... Esses olhos carregados de sono Voltados para o pano da mesa Guardam em mim a certeza Das nostalgias guardadas Nas ruas desse velho Centro, Depósito de solidões imensuráveis.

Recomeço

Passam segundos, passa o passado. Ouço passos; passou o ruído. Descompasso do tempo, Repasso o espaço do teu abraço,  Inconstante laço de um desamparo. Passam horas,  passam abraços.  Passam histórias,  voa o passado.  Refaço o começo,  Recomeço os passos... Refaço o tempo do esquecido espaço.  Guardo os passos que ainda não trilhei,  Enquanto os caminhos criam compassos,  Ritmos que guiam o descompasso meu. 

A Espera

Mário morava em um antigo sobrado na Rua da Estrela. Tinha cerca de quarenta anos,  mas sua reclusão fazia-lhe parecer um pouco mais velho. Vivia só. Na sua casa,  no entanto,  não havia quaisquer indícios de desorganização. Amigos,  não os tinha,  tampouco desejava alguém que viesse zanzar nos seus ouvidos. Engana-se quem pensa que,  a despeito disso tudo,  ele era extremamente insatisfeito com a própria vida. Naquele sábado,  abriu os olhos,  havia acabado de ter um pesadelo. Pegou o relógio,  na cômoda ao lado do espelho da cama. Já eram cinco e meia. Urgia levantar para buscar a sua filha. Tomou um rápido banho,  preparou um pouco de café amargo,  mastigou o pão de dois dias,  escovou os dentes. Novamente,  resolveu consultar o relógio,  o qual estava - agora - no seu pulso.  Ainda eram seis da manhã. "Joana ...

Devaneios

Em meus gestos abrigo Os mais calmos sorrisos De tristeza contida. Em teus olhos preciso Encontrar mil respostas Dos meus sonhos mais bobos. Vê... O tempo é atroz. Nunca perdoa o segundo que passa. Você percebe o que sinto No momento presente? Tua boca fala sozinha. O que me diz, afinal? Pede uma abraço amigo Ou o beijo de consumação? Eis que o medo aflige E os olhos tensos Desvio rumo a outra                                  direção. Que te importa se continuarei Trilhando sozinho, Quando o teu caminho Torto com pedras e espinhos Distancia-se do meu? Guardo o desejo De ganhar os doces beijos Que você nunca me deu... Se em algum momento, tiver a certeza do teu amor Talvez o dia tenha dois sóis, Confluindo num novo amanhecer.

A noite e a poesia

Espero o silêncio à noite Das multidões que adormecem. Busco ouvir os passos e gritos Indiscretos dos gatos vadios Nas noites de lua cheia. Noite serena que surge, Esconde seus medos vagos E enche de solidão Os corpos cheios de frio, Vivos, mas esquecidos Dos abraços, da partilha do pão. Noite, inquieta companheira Do insone poeta do nada, Refugia-se no escuro Do seu escuso destino. Vagas incertezas que cercam Divagações de um menino.

Espera

Meço os segundos À espera da tua resposta. Se olho os meus pés, Percebo o descompasso Destes meus rastros solitários, Sedentos neste espaço Da companhia dos passos teus. É alva como a flor mais pura, Se há pureza em uma flor. Distante como a lua errante, Intensa e reluzente; Uma luz no horizonte Das incertezas  que vivo. Igual aos teus cabelos, Talvez não hajam iguais. Tão pretos como o carvão, E brilhantes quanto o verniz... Eis que te peço um favor, Pedido do coração: Afasta essa tristeza Deste pobre aprendiz. Ajude a respirar  ares novos Quem já se sente cansado Por viver na solidão. São Luís,  16 de Setembro de 2017.

Simples

Imagem
Tons de rosa no fim do dia. Sinto um recomeço surgindo em meio ao vento  Que corre sereno Esquecido das intempéries criadas. Meço os passos inseguros De constantes certezas  Das mentiras que construo Com cinismo e leveza. Ouço gritos, risco muros Desafiando o futuro Que o destino deseja criar. Piso na lama, ou pulo? Busco o contorno ou o longo Percurso traçado por teus olhos? Será que o amor é a resposta De todas as questões? Ou quem sabe o grande problema, Em todas as estações?

Idealização

Árvores pacatas balançam Ao sabor do vento, Passivas às intempéries do tempo, Esquecidas do seu real valor. Tua pele macia Faz com que eu tema Tocar em teu rosto, Pois percebo impurezas No meu toque - pouco sutil. Esses modos de menina,  Nesse corpo de mulher, Com um sorriso que fascina, Mesmo quando não o quer, Fazem os dias sempre novos, E as certezas se perderem Em meio às águas do cais, No doce embalo do mar  [ E na contemplação dos belos olhos teus. São Luís, 26 de agosto de 2017

Revisita

Olhos voltados pro chão... Tateando no escuro, Escavo as lembranças, E refugo dores sofridas. Exorto palavras cortantes Usadas contra os meus sonhos, Em momentos de total desprezo Aos teus gestos,  e a mim mesmo. Não busco saber se algum dia Posso nada ser Ou me distanciar do que me faz ser,  Enquanto minha mente inconstante Traz a mim saudades do que nunca vivi.

Caminho

Desço a ladeira lentamente... Meus sonoros passos Confundem-se com o silêncio das ruas, Escuros caminhos que me fazem seguir. Observo o céu,  escuro e calmo. As nuvens cobrem- lentamente A lua que oculta o seu riso. Encontro em minhas mãos O segredo dos tristes modos Que afastam a quem não expulso Do convívio com meus gestos toscos. Caem as folhas das árvores... Cai a noite enluarada, Vão embora as lembranças Do que nunca existiu. São Luís,  19 de agosto de 2017.