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Digressões

 Alguma coisa Me faz pensar Nos passos dados Nas palavras e chances perdidas Nos erros contados E nos gestos incontidos. O tempo guardado Me encontrou perdido Vagando em marasmos De sentimentos distraídos E que já não falam mais, Seguem em silêncio Enquanto tento compreender O meio e o homem, Arrefecidos no mundo Que esmaga sonhos Insulta os planos E segue frio em meio ao calor crescente, Mostrando que a gente é inclemente Perante as dores alheias, Diante das almas que vagam no estio.

Poema Simples

O tempo povoado de frio, Do frio ao qual abandono Revigora as forças Para os dias de estio Enquanto os dias De cinzas se fazem azuis Infinitamente Enquanto o azul ilimitado De nossa limitada visão Encobre os medos dos sonhos Da vida em seu turbilhão.

Encruzilhado

Não me perco em palavras. Me ausento dos sonhos em silêncio. Já não me entendo, Pouco me conheço E se hoje me lanço Num novo e incerto salto - Sem respostas, recuo... Saio do caminho de nuances várias, Caminho no asfalto E não me perco mais Mais do que perdi. E já não sofro mais Com minhas armaduras de solitário Que me cabem E não permitem esperar respostas Que claramente não vem.

Vibração

Ah, se a gente pudesse... Pudesse sorrir de novo Diante dos olhos intensos Da bela mulher que desconheço. Moça negra, cabelos escuros, Com cachos tão belos Quanto um dia de chuva E a gente escondido Só ouvindo os sons do ambiente, E do tempo, os rangidos... Ah, se da História Essa mulher me contasse histórias Mesmo do que não viveu Ficaria atento ouvindo E tão leve, simples, sorrindo, Perderia meu olhar no teu, E inebriado de paz e sintonia, Ah, eu creio! Te amaria, Como ninguém jamais a amou Depois que te conheceu.

A Poesia e o Poeta

O poeta... Seria um escravo ou artesão? Preso às palavras Que liberta em transe Ou diante de muito esforço Ele sofre e respira tranquilo Sorri e chora em meio à vida Ruidoso silêncio Mistério e  turbilhão. Sua patroa, ou dona (?) (Ninguém sabe ao certo!) Segue abstrata Flui como rio diante do deserto... Palavras, artesanato, atitudes, sonhos. A poesia segue viva Na consciência, permeando a existência Dos homens que, dia após dia, Mudam sempre a vida E os rumos da história. E assim a poesia Salva vidas, transforma rumos, Faz a lida menos sofrida, Brilha o cinza, ferve o azul... Ela é livre, e borda o destino Do homem, que se fazendo menino Relembra de si para poder se entender.

Poema para a Chuva

Chove a conta gotas E, no entanto, tudo segue encharcado. As palavras esquentam o silêncio, O silêncio encharca as expectativas Que se dispersaram com o decorrer do dia. A mente inquieta corre... Precisa de mais calma e cores. Olha o tom cinzento dos telhados Ouve o som das folhas que caem E soltas, se misturam ao barro E moldam o quintal Com seu molhado chão. O dia preserva sua beleza De tempo frio e opaco E me convida a refletir Sobre os sonhos, desejos e cansaços.

Em Campo

Caminhando sobre a terra Cheia de brejos Repleta de lama Num lugar que respira a história Dinâmica e constantemente divergente Que mesmo sem um vestígio Do ar colonial de antigas casas da elite Tem um povo que ri  - Sonha e insiste Em viver no seu pedacinho de chão... Amo esse quilombo E esse cheiro de terra molhada. Amo o campo firme e vibrante... E amo a tortuosa, íngreme estrada. Gosto do tempo que se fecha E da noite que já se aproxima Do vento que encosta na testa Do sol que no campo se inclina E da vida que a vida atesta Na simplicidade quilombola e campesina...

Reflexão Bucólica

Há muitos dias O céu parece encoberto E quase não se vê a noite estrelada; O tempo escuro Traz o frio Amigo dos ares lentos Nas noites de março e abril. Hoje, não tive medo do dia. Hoje, andei devagar cada passo. Ainda que sonhos fujam E sigam escorregando das mãos, A vida transcorre -  Longo mistério levemente descoberto... Hoje, não quis navegar Na estranha melancolia De me agarrar a passados impossíveis, Sigo cioso pelos sonhos do futuro, Desejando o melhor dos mundos Ainda que siga sendo uma grande utopia Como um olhar e um sorriso Que possam apresentar novos caminhos E sonhos diversos para um novo eu.

Um Homem Fatigado

 O frio é companheiro, grande amigo. O tempo - pouco gentil - espreita e corre. É tanto sonho, tanto sono, cansaço e culpa Por não saber o que me deixa triste, O que me deixa fraco, o que me faz ausente. Já não sou uma criança, Embora às vezes assim me sinta. As crenças e desejos mudaram, Sonhos morreram, outros floriram Sem saber o porquê. E, mesmo assim, Faltam sinceros sorrisos E conversas duras, beijos reais, abraços singelos (Floridos anelos!) Que venham da mulher amada... - Mas quem ela é, meu Deus? Se já segui nessa estrada E já creio que sou o livramento de tanta gente... Em silêncio, penso, (Nem sei se sonho) Com um futuro estável, feliz, indiferente À validação sincera e inconsciente De minha solitária e discreta existência Por parte da triste e fria civilização.

O Homem

O homem calado Está aflito, ansioso, sobressaltado... Grita em silêncio, Sonha cansado. O homem aflito dorme, E sonha sempre aperreado, E clama sempre pelo futuro Tão sonhado e muito desencontrado. O homem solitário e tenso Já não sabe Onde se perdeu, Em qual porto perdeu o amor. Sorri automático, mede as palavras, Não se entrega à sutileza dos lugares, Constrói saudades enlatadas Prontas para serem arquivadas Num grande e velho barril.

Poemeto da Noite Fria

O frio amotinado Transpira como a noite que se inclina Perante a chuva Descendo como torrente intrépida. As horas frias Abraçam a solidão Encaram e encantam Meu olhar sincero Tempo objetivo - Histórias inóspitas, Momento incerto... O caminho borda silêncios, Rumina tranquilo Os medos do tempo ácido As bordas dos sonhos esquecidos.

Escrever

Sempre me preocupo com a forma. A forma com que escrevo E disponho sutilmente cada palavra. A forma com que noto e exponho Sonhos e vulnerabilidades. Não me importa Quem escreve mais bonito, Como dita as palavras, Como explica cada ponto. Bordo as palavras Mergulhando em mim mesmo, Buscando respostas ou fazendo perguntas, Usando um dom que a mim se apresentou. E assim, nem percebo tanto... Vou tecendo histórias, Rompendo meus meios silêncios, Amando a solitude da escrita, Escrevendo a cada dia Como se ainda fosse o primeiro.

Caminho

Caminho tranquilo. Caminho sozinho. O peso das escolhas Já não me aflige e machuca tanto. Caminho pensativo, Não tão machucado Quanto estive outrora. Já dou leves passos, Olho para os lados, Mesmo calado e compenetrado. Caminho silente. Caminho esperançoso. Já não caminho só, Mesmo sozinho. Me percebo em meio à multidão Que não me percebe E que não pode me entender. Caminho pensativo, Calado e tranquilo. E caminho sonhando talvez Com bons amigos, Silêncios e espaços diversos Para essa constante aventura Que é o simples ato de viver.

Terra em Ebulição

O planeta vive em ebulição. Gente sem casa, Gente sem comida, Gente sem escolha, Gente sem chão. A miséria grita. Em cada canto do planeta, Gritos abafados ecoam. Gente morrendo por golpes de Estado, Gente morrendo por ouro que nunca viu, Gente existindo sem viver, Gente sendo nada Mesmo respirando, Mesmo encarando a vida com a cabeça erguida. É tudo questão de mérito, dizem. Gaste menos, invista mais. Aceite a escravidão, Os massacres e genocídios, Golpes de Estado que trarão a liberdade do petróleo Escoando para terras estranhas Por pouco, enquanto sangra inclemente Um país inteiro e seu humilde povo. Os príncipes, lordes, burgueses, Todos eles sorriem Com a máquina mortífera Com amplos extermínios. Seus lucros aumentam. Que lhes importa o valor  da vida? Se o lucro não para hora alguma, E todo o seu dinheiro cria silêncios, Removem culpas, encobrem esquemas E vamos aceitando esses massacres, Não brigamos mais, não temos mais dilemas E assim naturalizamos não olhar o outro, Seus ...

O Tempo da Noite

Noite fria, tempo cinza... De fora ecoam os sons do brejo A sinfonia do campo Entoada por sapos, rãs e cigarras. Ao longe, as siricoras Chamam a chuva Que tímida, ainda não se apresenta. Tempo frio, noite cinza... Sábado à noite, calmaria. Bem longe, a ponto de não ouvir nada Pessoas cantam, dançam, Vivem o carnaval Sonham e sorriem O instante, um recorte Volúvel, o tempo que escorre Na vida sem fim. Noite adentro, calmaria. As estrelas se esconderam Para a chegada da chuva prometida Chamada pela sinfonia E que abraça forte Os foliões Como também intimida sem querer Os despossuídos, sem sombra ou abrigo, Que ignorados todos os dias Estão sempre na labuta Tentando simplesmente - sobreviver. Noite estranha, tempo vivo. O instante é um mistério, E a luz do silêncio Nos faz perceber Que em meio às dores e contradições Ainda é importante amar Sonhar, querer plenamente ousar e viver.

Afetuosidade

 As trevas lá fora Dançam em silêncio. Não rio, nem choro: Já não sei o que ou o quanto sinto, Quem sou, ou o que fui. Lá fora as cigarras Esperam a chuva Que insiste em vir furtiva Na madrugada. A vida habita e segue Nas margens do silêncio À sombra do tempo que passa E que hoje nada diz. Ah, como eu queria Amar me sentindo alegre O cheiro de uma simples flor Sorrir mesmo com o tempo esguio Olhar a Lua sem medo do frio, Dormir e acordar com algo sincero Cheio de entregas, obstáculos, medo e paixão, Divagando nos meandros de um olhar, Trilhando o caminho para algo concreto Um dengo, um afeto Realmente maduro para o meu coração.

Mais um dia comum

 O arco-íris num dia frio surge rápido e apagado indiferente frágil sorriso enquanto o Sol impõe sua luz vibrante. O dia frio e vacilante Assoma atrás dos morros traz cheiros e lembranças de tempos e palavras distantes e assusta a gente por não saber como encarar o que fomos. O dia abraça a gente com o olhar diferente do Sol que traz calor das horas que correm tranquilas e do silêncio calmo nublado tempo que edifica.

O som do silêncio

Não procuro nada. Nem mesmo palavras. Falo pouco, exponho pouco, penso muito. Silencio muito. E o faço sabendo Que ninguém vai perguntar nada. A vida adulta é uma correria. Corremos para ter tempo E que tempo a gente tem? Quanto mais o procuramos, Mais ele escorre, fogo Como amizades e sorrisos que se perdem E que não voltam jamais. Não exponho nada. E quero tudo o que me faz sorrir - Não todos os dias - Ninguém é sempre feliz... Quero um mundo de paz Ou ao menos paz no país. E ver o povo sonhando Tendo bons motivos para isso. E acordar todos os dias Tendo poucos e bons amigos, Boas conversas, um bom trabalho, E alguns leves sorrisos diários que me envolvam inteiro E transmitam o amor Que anda tão escasso, frágil, calado Nesses dias estranhos De silêncio e pouco frescor.

Poema Reclinado

O dia se inclina Cálido sobre a serra E reverbera o silêncio das mensagens Que não mais foram escritas. O amor, o choro, o grito De querer te reencontrar Foi substituído pelo calmo olhar meu. Distante, contemplativo, Sonho alto e sou cativo Da realidade que se apresenta. As plantas verdes Sincronizadas São um sinal de esperança vibrante Um canto silencioso Da paz silenciosa e gritante Que o amor, para mim, um dia será.

Ano Velho, Ano Novo

Foi um ano complicado. Muita energia gasta, Labutas incertas E mesmo assim - é certo, eu sei, Vencemos dia a dia Os percalços na estrada. Foi um ano difícil. Poucos sorrisos, O olhar vago e taciturno, E mesmo assim, Em meio às noites de pouco sono, Enfrentamos os medos E seguimos. E o ano que termina E abre a porta pro outro Transborda de poesia Ao renovar as esperanças Abrir caminhos E encantar com a perfeição Do divino manifestada no instante E na paisagem.