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Mostrando postagens de novembro, 2019

Sem Fúria

Os cliques nos teclados quebram o ritmo do silêncio. O tempo urge, mas esconde a pressa… Ouço e meço as palavras Como quem se desespera diante de um caos. Vejo os dias cansados, passados, jogados… As sombras de amores perdidas, pisadas, Como pétalas de flores esquecidas, amassadas, Como areia nas dunas, que correm,  Vão e vem, e um dia morrem Como todo encanto sempre vai. E nada falo, quieto e calmo… Só deixo a mente caminhar E deixo o tempo esquecer, Deixando a vida transformar.

Não Esquecer

Enquanto as novelas e o futebol Dominam corações e mentes, Em longínquos rincões Mais sentenças do tribunal de violências Ceifam a vida de quem luta Impõem o medo e assassinam o futuro. Ao longe, em Brasília, canetas assassinas Dispostas à mão pra proteger o burguês, Controlam, assustam e preparam Os passos pra chacina autorizada E aumentada contra os pobres, Eternos inimigos Que não se acomodam na mesmice De um emprego em lojas de roupas,  Oficina mecânica ou num supermercado... Enquanto isso, falsos aliados Entregam os sonhos e histórias Para os conglomerados que nada perdem Com seus velhos discursos Com sua combalida ganância Travestida de boa vontade Enganando quem vive e sonha, Acabando com as riquezas locais E fazendo o que é esperado Nesse jogo ganho - combinado Entre Estado e burguesia, igreja e companhias, Nessa roda que assassina o amor à terra E aos sonhos que dela podem brotar.

Chama

Chama ela pra sair. Chame ela pra dançar. Os dias sempre serão incertos, Mas a hora não pode esperar... Chama ela pro cinema, Comer um lanche, olhar a lua, Traga ela pro seu mundo, Respirem juntos, vão à rua... Segue firme - rompa o silêncio. Mostre a ela a segurança do toque, O olhar entregue, as palavras sinceras... Chama ela e não se assusta Se um milagre acontecer, Se num dia cinza escuro - o amor enfim nascer...

O Copo de Leite

Era um dia de sol; A luz brilhava ao ponto de impedir uma boa visualização do que havia no céu. As palmeiras no morro íngreme balançavam, seguindo o ritmo impiedoso do vento. Ao longe, bois caminhando no campo alagado. Marrecos gritavam ao longe; motos transitavam pelo ramal, com a pista fofa, de muita areia. Jorge se balançava; havia tempos, não podia sair, mal conseguia andar. Sua única arma era memória; dos tempos de jovem, da maturidade cansada; da velhice do descanso forçado. Naquele dia, ao certo, lembrara de uma flor. Transportou-se em quarenta anos. Estava no povoado de Desce e Rola. Era um festejo; o santo não vinha à memória naquele momento. Duas dezenas de homens carregavam o mastro; homens e mulheres cantavam, tocavam e dançavam ao ritmo do Tambor de Crioula; o dia se aproximava do fim, e as velas e lamparinas já iniciavam o seu uso, pois não havia eletricidade num raio de pelo menos, 30 quilômetros. Foi então que ele viu… Viu o que, para ele, seria a própria visão do paraí...

Lama

Olhos em direção ao teto... O dia nasceu, mas insisto em ficar deitado. Vagas lembranças se sobrepõem. Fico calado enquanto lá fora Carros e pessoas perdem a calma. Penso naqueles olhos que vi Há tempos Nos quais procurei respostas Mas sempre encontrei amargura, Prepotência, orgulho, Dissimulados faróis de tua alma. Não gosto de lembrar dos cabelos pretos Com  cachos definidos e incontestes, Pois as mentiras assomam e afagam Todas as velhas lembranças que me assomam. Não gosto de lembrar O quão ingênuo já fui por te querer E quantos versos de amor já gravei Em papéis e paredes com teu nome, Infeliz embasbacado e desiludido Nas vagas horas da noite, Com o gosto da derrota claro Observando a lua minguar num céu Mais escuro Como o amor que um dia te dei, Até que aterrado na lama, Lá o deixei e segui à procura do sol.

Estar/Ser/Caminho

Tenho andado só. E não há desespero. Faço silêncio: as mágoas enfrento, Sigo tranquilo com a indiferença. Os dias são secos e duros, Como o torrão da baixada sem água em setembro, E as palavras econômicas atravessadas Ou engolidas no oportuno silêncio. Venho caminhando: e não há mal Em estar um pouco sozinho. Sem círculos demais, Com palavras e problemas Tão menores Que as longas madrugadas de insônia, Inquietude e cansaço.

Pra Você

Mais um dia vem nascendo... Como nascem os amores e os sonhos. Ou os sonhos não nascem, já são Antes que a mente os perceba? Galos ao longe cantam, Anunciam o novo dia de batalhas. Afligem quem se atrasa com o sono, Apressam quem tem tempo e ansiedade. Talvez tenha pensado vagamente Nos seus belos cabelos, Na sua calma e contida expressão. Em sua tez branca, e na indiferença Que mostro todos os dias Como válvula de escape Pro meu silêncio medroso e necessário, Para anseios vagos que a noite traz E se desfazem logo cedo, Ao primeiro clarão do dia...

Pálido Início

O dia começa pálido e sutil Assim como a leve paixão repentina Que adentra mas não afaga As certezas do meu coração. Lá fora parece silêncio, Mas é apenas o isolamento. Ao longe, uma avenida. Há muita gente já em pé, Há muita dor em movimento. E eu fico aqui, pensando no silêncio E nas suas definições... No medo de falar que me aflige Logo que te vejo E impede que eu te veja tanto Por te saber ali perto. E assim deixo a barba e o bigode crescer, Observando meu medo certeiro e feroz À sombra da tua vista - e presença.

O Bom Pequeno Burguês

O bom pequeno burguês Diz que sonha com um mundo novo. Mas o caminho ele não sabe. Ele odeia a revolução; Prega a falsa paz, enquanto a polícia mata Sem dó nem piedade Os companheiros que lutam Por um pingo de dignidade. Adula o quanto pode a burguesia nacional, Mas, calma... Ele é socialista democrático, Nova nomenclatura pra um liberal mal enrustido. Se prende aos livros, Renega a revolução... Diz ser muito violenta. Esquece que o fascista cerca os seus amigos, família, Lincha e sem pena grita: morte aos comunista!!! Acredita que com os seus livros(escondidos na academia),  Memes e passeatas pacíficas, Já temos base mais que suficiente. Ignora que ao povo descrente Não foram ensinados princípios básicos da teoria. Talvez por isso entre em movimentos Pra ganhar projeção e ser candidato. Se a derrota é sofrida por quem a vive no dia a dia, Observe a praia com cocô da burguesia, E lá estará, fumando e olhando pro teto de um quiosque, Pois para ele a revolução é tão desnecessária Que...

Enquanto

Enquanto faço versos fofinhos, O mundo em ebulição ensaia os próximos passos... Tropas de choque ao chão. Recuos burocráticos à espreita Da massa inquieta e viva Que se apossa das ruas e dos sonhos Sempre tão justos e seus. Enquanto me ponho a escrever, Mães criam filhos sozinhas, Com muita labuta e cansaço, E revigoram todos os dias O compromisso e o cuidado com os filhos. Enquanto me ponho a redigir, Pessoas negras são discriminadas, Presas, assassinadas, armazenadas Em vagas estatísticas de crimes Com alvos óbvios e sem qualquer solução. Enquanto reflito sobre as palavras, Mendigos - nacionais ou estrangeiros, São desprezados, pisados e mortos, Num indiferente país, no qual impera A falsa caridade da esmola cristã desinteressada, Onde a cordialidade é refém do dinheiro, Sonho de muitos e poder de poucos, Os donos do mundo em que estamos.

Oiecer

Disfarço o tempo e as escolhas. Afogo as palavras, o medo e a coragem atravessada. Ajusto os caminhos, esqueço as tristezas, Encontro a calma e guardo o rancor. Disfarço os olhares interessados... Simulo a indiferença para não parecer tolo. Encontro o receio de falar qualquer coisa, Mas quero saber o incerto destino Dos meus sonhos de areia Projetados ao correr dos olhos. Busco os teus olhos tão rebeldes, Que às vezes parecem procurar Os meus assombrosamente receosos Enquanto flutuo sonhando acordado Com o teu toque e jeito Compensando o pesado cotidiano.

Ops

Fico calmo enquanto a observo. Sem pressa, atento, fito Seus olhos pequenos, A tez clara, os cabelos loiros. Mas fico calado e disfarço... Fico esquecido do tempo Enquanto falo com ela. Desatento para as multidões, Fito-a e não percebo o tempo que se passa. É a calma  que impera todo dia, Uma extrema leveza  nos passos lentos, O esquecimento de outros olhos Para além  do horizonte. Enquanto mantenho o silêncio, Guardando os sentimentos Na chave do meu coração, Finjo que o mundo continua igual, Esqueço um pouco os contraditórios caminhos...

Noite em Alcântara

Sozinho nas vazias e silenciosas ruas de Alcântara, Caminho sem a certeza do amor... Navego na solidão que invade as horas, Enfrento o silêncio dessa calma noite de luar. E vê... Na praça vazia A noite não me assusta. Só o tempo intrépido Não perdoa a trajetória, Incita sempre as lembranças Rumo a outro caminho. As árvores oscilam lentamente. Não se curvam ao frio e triste vento do mar, Afogadas na melancolia do calmo sentir, Sob a luz da lua imponente e vazia.

Atxes

Ouço galos ao longe... Pássaros entoando suas músicas Conhecidas e recorrentes Lá em cima, um pouco longe da maldade média. Os carros vem, vão... Pessoas correm às padarias, [Saem no frio de fim da madrugada E se deslocam pra longe dos seus sonhos Mais reais...] Enquanto isso, olho para o teto... Antigo como a história de minha família, Esconde segredos e histórias Dispersas, vãs e alegres, Dos dias cinzas e azuis.

Quando

Quando havia amor, Sempre estive à tua espera. Mas agora, se não vens, Eu tampouco indagarei A razão de tua ausência sempre presente. Quando havia ilusão, Também existiam os espinhos Camuflados sob a ternura, Esquecidos em qualquer sombra... Quando havia entrega, Abundavam os meios sorrisos, O olhar sonso e fugaz, A tolice nos meus trejeitos, A quimera de uma paixão. Mas hoje, se não vens, Não existem mais os espinhos, Dispersos em meios sorrisos, Esquecidos à sombra de tua ausência, Quimera sonsa e presente, Versos transversos de uma canção.

Psiqueros

Havia tempos, e eu não via nada além De pessoas e sorrisos. Houve um momento onde tudo era cinza, O chão sempre duro E as certezas da mágoa eram imponderáveis. Havia sonhos que foram esquecidos, Palavras guardadas para cartas que não mais viriam, Discretos olhares interessados que não fariam Qualquer sentido aparente Para quem cansou de acreditar. E, vê... Ainda não acredito, Mas me envolvo em silêncio, Observo aos poucos E sem que se perceba, Vou devagar sondando o território Incerto, sutil e vago... Sem pressa. Apenas absorvo Palavras no cotidiano, Envolto num sonho me engano Ou num mar de poesia me envolvo... Amor, não é com certeza. Paixão, talvez a começar. Presente do tempo ou das ilusões, Oráculo das histórias e dos corações Na infinita trajetória de Eros e Psiquê...

Coti

Lá fora a lua quase apagada. Aqui dentro, o silêncio da madrugada sem estrelas. Lá fora, os cães dormem E os gatos andam cuidadosamente sobre o telhado. Lá fora pessoas já caminham Para os seus cotidianos sacrifícios Sempre à espera de nada esperar, Receosas das incertezas e sobressaltos... Aqui dentro observo um felino, Quieto, soturno e solitário, Dormindo, um pouco cansado... Me sinto exausto também. Mas todos os dias levanto, Ponho um sorriso - já se foram quantos? E sigo as certas incertezas em mais um dia comum.

De Hoje

A vida é dura. O sol inconstante. O vento que corre mente E me traz sempre as mesmas lembranças... O dia entra pela janela. É claro, mas nada parece no lugar. A vida, o quarto, vaga bagunça... Os olhos fitam a solidão, Ardente companhia sozinho ou a dois. Não flerto com a tristeza. Apenas venho seguindo Os instintos instáveis  Do meu confuso querer. Absorto fico em busca de respostas Quando o maior mistério É o do silêncio nas escolhas, Caminhos cruzados, curvas dispersas, infinitamente sós...

Stress

Não estou esperando nada... Nem um sorriso na rua, Qualquer olhar sincero ou dissimulado... Tudo é concreto - a vida é isso. A mão que afaga só existe no sonho. O beijo molhado, de entrega profunda, Só existe em romances profundos e chatos. O dia começa monótono, calmo... Amigos, ao longe - será que existem? Cansado dos velhos hábitos, Procuro um meio de distrair meu tédio. Pessoas que vem e vão... E tão dispersas seguem cruzados caminhos, Seguem indiferentes, tão distantes, Ausentes, vazias de si... E eu olho pro quarto, sem sono, Mas pouco interessado  Em sair num dia todo azul.