Postagens

Sem Título

O mar fétido encanta milhares, Atrai corpos e olhares, Ofusca a paisagem e assusta Quem vê sempre as coisas finitas. A angústia do mar Parece com o desespero... Afaga e aflige com a imensidão A quem tem medo do desconhecido. Não importam velhos vultos... Tudo isso passou. Lá em frente, casais observam a lua. Comem, riem, discutem... Vivem. E aqui observo Recluso, em silêncio, Tudo que ainda não encontrei Em qualquer coisa rua ou esquina, Num olhar vago e desinteressado De algum improvável momento.

Dispersos

Escondidos em uma sala Digitando Vivemos como burocratas Distantes da vida e dos sonhos Em silêncio focados no nada. O dia lá fora já se foi Mas parece que a noite também Parece estranha. Ficamos fechados, olhando pro teto: Desconsolado consolo para mentes inquietas. Os minutos correm ou se arrastam. Não reparo o ritmo, apenas acompanho O tédio que aflige, paralisa e chateia. Não tenho buscado as flores Que um dia dei a diversas mãos. Apenas desafio o silêncio Buscando uma pausa para a fadiga, Amiga do tédio inclemente, Companhia feroz e sagaz.

Ainda Iguais

A luz que passa pelos telhados É limitada, frágil e curta Como vozes autoritárias Que se levantam de tempos em tempos. Abundam as respostas para o mesmos problemas, E no entanto, vê: Ninguém consegue conversar, Afoitos e afeitos que estamos A idéias fechadas e incompletas. O dia nasce bonito, Mas os atos enfeiam o tempo, Como paredes escarradas de gripe, Ou lâmpadas cobertas de teias. E vê: aqui ainda estamos... No fim das contas ainda seremos iguais Ao que sempre evitamos E não queremos repetir. Onde está a coragem de romper Para além das palavras E viver como sempre quisemos?

Hoje

O dia sem chuva. O sol firme. O sorriso recorrente. As horas reféns do espaço, Os sonhos tão perto - incertos Como as folhas que caem ao chão. O povo morrendo de fome. A fome da população Que não é só da comida, Cultura, saúde, educação, Lazer que não seja só quadra, Livros em todas as mãos. Os sonhos avançam no medo... Com a fome da população, Que não é só de comida, Mas de unidade, trabalho e libertação...

É chegada a primavera!

As flores caem ao chão da pista seca De concreto batido e gasto. Os pássaros ressoam desde o meio da madrugada, Entoam cantigas no frio das três... Os olhos em frente ao espelho Notam uma cor diferente No olhar de quem corre Todos os dias contra o próprio tempo... Talvez uma solidão acostumada Em ser quem é sem medo... E que brilha na esperança de novas certezas, Caminhos e sonhos. As pessoas como sempre Passam ligeiro, correm e desviam Das descobertas de mais um dia azul, Distantes de tudo E próximas ao resto da multidão. No entanto, é primavera. Primado de luz e beleza, Silêncio, entrega, contemplação...

Conjunto

O som dos passos na escada. Pessoas seguem inconstantes Na rua, falando alto na madrugada. As horas passam lentas e tontas Sobre a noite clara e limpa Com a lua cheia. Motos e carros velozes Na quase calma madrugada Correm sem medo ou pena, Assustam e despertam quem sonha Enquanto caminham secos e concretos. Lá fora as estrelas dão voltas sutis Ao redor da Lua. E as pessoas desatentas não percebem O valor da calma doméstica Na regência noturna do imperioso luar.

Palavras e Omissões

Malditas as palavras De quem balbucia em favor Duma suposta unidade E não tem humildade Nem coloca os pés no chão. Malditas as palavras Que saem dos omissos, Criticando quem se posiciona, Mas sem dar um passo Em qualquer direção. Maldita a falsa paz De quem não vê os problemas De todos assomando a porta Ou finge não saber E vai à festa toda semana Sem motivo algum pra festejar. Maldito seja o medo conivente Ou o gostar submisso Que prendem, acovardam, enfraquecem os laços... Maldito seja o olhar diferente Pela cor da pele ou posição social... E mais maldita é a crença De que tudo se resolve com meias inclusões Vagas reformas Sussurros distantes na busca por igualdade. Maldita toda a desigualdade E o que a gera também, Quando pessoas morrem de fome, E outras - fartas e prepotentes Palitam os dentes e sonham Sempre em ter mais poder, Mais dinheiro, reinando sobre as leis, Os son...

Vagas

A noite tão clara, A lua distante... Miro o vago horizonte Num tempo incerto e esguio. O vento caminha lentamente Como idosos subindo ladeiras. A solidão bate calma Sobre o ombro, Mas não assusta... Vem junto o tempo, E no entanto, não consegue remontar ao passado. Noto as pessoas nas ruas Tão juntas, alheias... Deixo a vista voltada pro chão, E sigo apenas contemplando o vazio Após um dia cheio de luz.

Perspectiva

Braço apertado. Palavras de coragem. Mas não de auto ajuda, apenas conselhos. Olhos voltados pro céu, Tão cinza e seco Como o olhar felino e feroz De animais que encantam sem querer. O medo sempre assoma, Mas quando vem, só posso enfrentar. Não ceder, sucumbir, chorar. Avançando os dias sobre a torta estrada Desse mundo desigual e perdido. Não é com medo ou conformismo Que enfrento as horas que assomam... Mas caminho sem saber Onde chegar Com o meu passo longo, Compassado e decidido.

Domingo

É domingo, mas os galos cantam... É mais um dia de um tempo azul. Mais um dia sem vestígios de orvalho, Seco, taciturno, mas leve e sutil. Bem-te-vis entoam a sua cantiga Ao longe, lá atrás... Paira sobre os homens Uma solidão de gelo... Ou de ferro, talvez? Circunspecto, olho e finjo não observar A vida que vai e vem Se transporta  de várias formas Se assusta e contradiz Nesse espetáculo de luz e sombras.