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Versos no Escritório

As horas corridas, As portas abertas, O cheiro contido Na sala cinzenta. O sol limpo e claro, As horas que afagam O tempo e as palavras Também me contestam Quando crio alguns versos Que não citam o malogro De algo chamado - amor.

Mais um Dia

Os galos ansiosos Aceleram a chegada do dia, Enquanto - no quarto Murmuro palavras ao meu passado. O tempo,  afinal, corre fugaz. As horas de sonho se esvaem. Os olhos calmos e silenciosos Sussurram ao vento diversos lamentos, Enquanto a brisa fria das ruas Invade um recinto de poeta.

Trivialidades

Os livros na estante. A parede concreta e fria. A luz sob o telhado. O tempo contra o embalo. A mesa velha e cansada. O piso antigo e desbotado. Muriçocas seguem inquietas Seus caminhos de solidão. Balanço a rede estridente, Suada de sutis embalos, Enquanto a alma - inocente, Reclama o amor que acalma Pela vida serena e ardente Os dias de ventos suaves E noites de intensos mistérios.

Novamente - só.

Passeio nas praças inchadas De gente, sem alegria. Vejo os tambores tocarem Enquanto sonho com versos sinceros. Observo formas alvas Diluídas em preto Vagando pelo horizonte - distantes, Sementes - da solidão descrente, Detentoras de minha inconstante atenção, Do sacrilégio de ser só, Sem permitir ao tempo As palavras certas No instante correto Enquanto destoo desse mundo eclético De alegrias vãs e silêncio férreo. Onde está a lembrança Do que um dia se foi? E a ilusão de quem já será? Fito a lua dispersa no céu, Sinto ao longe o vento que corre ligeiro, Trazendo os recados do constante silêncio, Num longo esquecimento Empurrado pelo tempo Em uma velha garrafa Flutuando no mar.

Sensações

A noite sobreposta ao perfil de silêncio Dos gestos e formas suaves e sofridos Enfrentando a certeza atroz De caminhos e gestos sinceros e indecisos. Sonhando com as palavras inertes, Flutuo entre suaves brechas, Nas escolhas  inesperadas Das horas em que o arrebol se impõe Ao tempo corrido e desesperado. Toques de espinhos ferem sentidos, Me deixam esquecido Das folhas no chão, E fazem o espaço - aberto e cansado, Viver livre e fraco, tristonho e opaco, Nos momentos que afago Com apático silêncio O leve vestígio de uma paixão.

Indagações

As horas que conto Desconto no meu descompasso. Caminho no espaço concreto, Chutando sonhos despedaçados. A noite talvez fosse azul, Se o dia pudesse ser verde. O tempo aquieto - estremece Nas ondas do meu despreparo. Sonhando à noite - sozinho Socorro as palavras dispersas, Buscando, em meio ao caos, As forças dos gestos opacos, Criando um novo oceano De palavras, risos, retratos.

Reflexão noturna depois das nove

As horas de espera Navegam contra a corrente. Resoluto, sento e em silêncio Procuro a certeza guardada. Não há vontade real Em convites mornos e frívolos Como salina à beira do rio, Sem contexto ou sentido. As luzes assustam a noite E escondem as estrelas da terra. Destroem a beleza da lua. Transcorrem indiferentes. Caminham vazias palavras Ao redor do meu calmo mundo, Brilhando em sonhos e metas Que traço a cada segundo, Soando em todos os versos Universos onde me encontro.

Caminhando

As palavras navegam Sobre incertos caminhos De luz e espelhos Na noite inescrupulosa. Os versos de areia Escritos sem luar, Árvores ou brisa Vagueiam sinceros sem sonhos intensos. Correndo nos campos, Andando nas ruas, Navego em poesia, Esquecido dos medos Sem saber o caminho... Sem certeza dos passos, Vou criando um espaço Nos caminhos que faço Sem o calor dos braços Duma utopia chamada - amor.

Agora

As escolas quebradas. Os pobres jogados ao ostracismo. Bandeiras-aos montes- se espalham Nas ruas, e enganam olhares de sonhos e luta. Bastam palavras,  toques e mentiras. O povo (re) usado se curva impotente. Não vêem que a vida é luta constante No instante em que a ilusão, Companheira esperada em tempos incertos. Mendigos jogados nas ruas À mercê da sorte sofrida e incerta, Contemplam com os olhos a miséria De quem lhes recusa um abraço ou o pão. Marchando com flores à frente, Com sonhos e amores nas mãos, Podemos mudar a história, Viver em um mundo de irmãos, Destruindo o passado dorido, Doando sonhos, garra e luta, Caminhando na contra mão. São Luis, 17 de agosto de 2018

As pedras no Caminho

Talho as pedras. Ajusto os passos Decididos e justificados. Faróis assomam com suas luzes distantes, Na avenida de emoções fugazes. Não foi assim que o passado se desfez. Mas só assim o presente se costura. Sem mágoas na colcha de retalhes, Enfrentando a solidão,  fiel  companheira, À espreita de passos marcados Com água, sabão e saudades adormecidas... Segue o rumo da noite absoluta No silêncio do vento  frio e quieto, Esquecendo as pedras do caminho Enquanto o dia novo não nasce Em meio à chuva inclemente.