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Ainda

Suspiro em segredo Na praça irrequieta -  quando Me vejo a sonhar Com a forma inominável Da mulher que ainda amo. Tanto a amei sem ter direito, Chance,  vez ou sentimento, Restando aos meus olhos vorazes Contemplar,  no relance sagaz, A distante e sonhada paixão. Caminho só sobre as pedras de cantaria Sereno e firme, observo o horizonte Rasgado por nuvens distraídas que vão e vêm. Sigo o caminho... Silêncio e solidão medem curtos passos De longa distância, Enquanto encaro sem medo o passado que não existiu, Distante do sonho mais louco, Nas horas de estio de noites sem luar.

Eu e a Lua

A lua distante inclinou sua luz Dando à minha impaciência A calma inesperada num dia de sol. A noite suave brilha sem estrelas Enquanto a lua distante não me assusta. Apenas supõe um novo começo No inverno de chuvas sinceras e inconstantes. Divago em palavras e conjecturas Enquanto deixo o tempo correr Em suaves ondulações de certezas esquecidas.

Oficio do escritor

Acorrem palavras vazias Ao discurso soturno e pueril. Corre a musa desesperada Em meio ao tráfego de ônibus intenso. Capto imagens daquilo que não percebo Enquanto novas palavras se colocam. Deixo o dia transcorrer vazio, Enfeitando com as mágoas o meu desencanto. O papel suaviza o contato com as mãos Enquanto traço um futuro Para as horas passadas, Num espaço de tempo que hoje é só meu. São Luís, 25 de julho de 2018. Dia do Escritor.

Uma carta de Amor

O dia partiu mais tranquilo Quando as nuvens tocaram o mar. E o céu no horizonte azul Se fez rosa como o amor ideal. As ondas divagam em meio à maresia. A noite sutil caminha serena. Os passos diversos da multidão Impedem o silêncio no qual me deixo estar. Caminham suavemente formas alvas Que de relance - vem de encontro ao meu silêncio, E sai confusa,  na sua diafana dúvida Sobre esse amor recortado e doido que guardei. Não espero que um dia Você chegue e diga- que o recomeço Se faz abandonando o passado, Esse véu impuro de torpes mágoas, Ou que devo seguir ao teu lado, Erguer um futuro ao presente obscuro E ao passado de dor... Andei nas calçadas, olhei os casais nas praças desertas, Senti mil perfumes, vaguei pelas ruas. Mas nada seduz mais que o abraço Sincero,  marcado,  sentido, sonhado Em cartas de amor. São Luís, 24 de julho de 2018.

Serena Natureza

Tantas gotas grossas e secas Caem dos olhos de um céu indefinido. Um vago tom de azul Que vem do Norte ao Sul, Engole as tristezas Enquanto o silêncio das conversas amigas Esquece, nas sombras,  o sofrimento palhaço. O amor não cessa - se ele for real. Os pingos de chuva desse dia cinza Trazem à vida a calmaria azul, Como o horizonte, iludindo os homens - aparenta ser. Ouço as palavras que nunca falou. Vivo um passado que imaginei. Olho as flores que um dia esqueci, Com o desencanto que um dia foi meu.

Otnemal

Sussurro ao tempo O estado dos medos Durante as horas do teu escrutínio. Navego em lembranças Do silêncio das praças, Em que estive só - milhões de vezes, Divagando no vazio do espaço. Quantas noites de lua cheia, Fiquei a sonhar com o imaculado amor Que nunca se mostrou Pois nada havia além do  meu desejo Senão a pura indiferença, Torpe sussurro dum surdo desprezo... Controlo o relógio invisível Dos medos que enfrento nas ruas Sob os raios do sol,  inclemente amigo De um sutil caminhante nas vias tortas de um espetáculo - a vida.

O mistério de Cronos

O tempo embala as memórias. O nada se impõe ao silêncio. Os dias seriam mais belos Sem mágoas no horizonte. Procuro o socorro da luz No concreto labirinto... Tateio palavras - discursos vazios. Procuro teu cheiro,  com os olhos abertos, Sonhando despertos nas horas de estio. Florescem os vestígios de um recomeço... Descubro o vazio no qual reconheço Teu gosto sincero pela distância, Deixando as horas correrem, Relevando o nada que fomos. Talvez só restem gotas Que façam sentir o meu rude descompasso Do abraço que não me deu Quando,  enfim - te deixei partir.

A noite sincera sem Luar

O gato preto me fita Com seu felino olhar atento. Refém da preguiça, Encara a  minha mão, Mas fecha seus olhos E aproveita o sono da noite, Escura como a pupila dos seus olhos arregalados... Cães latem nas ruas. Pessoas andam com pressa Na rua deserta de sonhos. Cansaço cotidiano - isso as invade e domina E assusta quem - sem medo, Não deixou de sonhar com um mundo sincero. O céu sem luar e estrelas, Signo da modernidade doentia, Deixa as luzes dos postes irradiarem Sobre a nossa humanidade perdida.

Essa Noite

A rua serena Na velha rotina Dos passos que vão e vem, Engata palavras,  avoluma sussurros, Assusta desatentos ouvidos Na noite singela e monótona De um linear e silencioso bairro. Espero a chuva cair... Mas sei que o tempo engana, E a noite sem estrelas ou luar Nada fala, atenta ao seu ofício, Num infinito ciclo de constantes recomeços. Embalado na rede Permito-me deixar o vento da noite Adentrar com o seu frio ligeiro, Enquanto transformo pensamentos Em palavras bruscas e tortas. Não bastam flores ou cartas, Se o silêncio é a regra, Quando as palavras são farsas E o coração - de pedra.

Dois Sóis

Veja a lama do mangue Clamando por atenção... Siga os passos das flores, Pise as dores do chão. Ouça o toque do vento. Vê que ele é feliz... Como o tempo inconstante Do instante - matriz. Olho o céu sem estrelas... Tão limpo, azul... Guarda tantas mentiras Escondidas, dispersas de Norte a Sul. Deixo o vento passar. Com sua brisa ligeira, Como a tua lembrança, sutil passageira, Nesse dia confuso e calmo, Como chá de cidreira Num café da manhã singular...