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Nasceu o Menino

Nasceu o menino... Como nascem tantos meninos. Em meio à pobreza, Humilde e triste nascer.  Sem sonhos ou documento. Sempre pronto para fugir Da fúria da opressão. Nasceu em meio a habitação  Dos bichos Onde não se sabe Não se viu Não se conhece O endereço da dignidade humana E respira a miséria Silenciosa que grita. Nasceu o menino E mal nascido Já teve de fugir Rumo ao exílio Rumo à liberdade Ao preconceito A indiferença... Nasceu o menino E nós esquecemos De tantas crianças Sofrendo nas ruas Mendigando pão Afeto, sorrisos E cortejamos A nossa moral cristã Que só lembra dos pobres Pontualmente Nessa vã caridade frágil Hipócrita e inconsequente...

Nublado

Seria eu Um passageiro do tempo Que esqueceu de seguir E vai traçando um roteiro Num círculo bem estreito E parece sempre dançar A mesma dança Sentir os mesmos ventos Beijar as mesmas lembranças... É tudo tão cruel Ou eu me faço assim... Vou sofrendo e... Onde estou? Onde havia a coragem, Há algo tão frágil. Um sonho com medo Desejo Onde um dia habitou  A certeza do querer. 

Quase Natal

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As palavras São curtas São tontas Dispersas Na noite Suaves Soturnas. É tudo tão claro Lá fora... As horas trafegam No jeito sutil. É o sonho que sonha A vida que assusta Celebra, contesta Sorri e assunta...

Imensurável

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Hoje não tenho medo. Não me invade a melancolia Que vem dali, abaixo Vem com as ondas Do calmo mar... Hoje atento  Pra cor O ritmo A leveza  E não importa que falem Palavras tortas Vulgares Eu só sorrio Sou todo encanto Um bom poeta Quieto em seu canto Sonhando tanto, Tranquilo ao som  Que vem do mar...

Um mergulho

Tão intenso... Já não faço Já não sinto mais verdades. Já desfiz minha coragem. Já não bordo Bilhetes Com palavras embebidas de amor... Tão intenso... Já não ouço Ou não busco Mais conselhos - Velhos  problemas... Se amei, já me desfiz De tortos laços e vernizes, Vãos e perdidos recortes... É tão intenso... Como as minhas armaduras, Os sonhos de amor onde - ainda -  ninguém coube, Como os meus subterfúgios, Como um mergulho em mim...

Sou

Sou... Quem sou? Mais que um emaranhado Ordenado De palavras difusas, Sou uma história Verso movimento... Sou mais que um poeta. Sou quem sou. O que vive, sente, escreve Os próprios instintos  Sentimentos Tão alheio a si próprio Tão sincero sem tentar... Sou. Talvez apenas seja Versos estáticos Tão soltos e ordenados De palavras simples De histórias por contar.

O Preço das Escolhas

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São sempre as escolhas Que mudam Deformam Transbordam Transformam Dão um novo tom... Não importa se dói. São apenas consequências Dos atos, das escolhas Descompassos... Atos Releituras Despachos Que vão remodelando Os sonhos a cada dia. E melindrosamente Tocando novos acordes Assomam à nossa frente  Sinceros e adormecidos Instintos fluídos, frementes Sem destino ou direção.

Poema do Amor Imponderável

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É a solidão das águas Que batem forte Abafadas Pelo astro sol  Imponente Intocável Distante, imponderável  Cheio de instantes, lembranças  Histórias alheias... A solidão dessas pedras Nas quais transito Com meus pés cansados... É talvez - a solidão dos ventos Que correm aflitos, certeiros... A solidão das rosas Que teimam em surgir... É a minha solidão Do amor esterilizado Da simples contemplação... À beira dos lampiões Confrontos de conflituosas lembranças... Um mar de indagações Flutua, transborda, E vou ficando quieto, Rompendo o ciclo Enfim... É  essa a solidão Que corre e incendeia Afaga e transforma... Transmuta os desejos Dispõe e não machuca...

Não é o meu perdão

Não é o meu perdão Que vai mudar a história E reverter o abismo... Não é o meu perdão Que vai pôr um fim À fome de milhões, Ao povo nos lixões, Aos ossos nas prateleiras, À miséria grassando inclemente... Não é o meu perdão Que fará minorar o desemprego; Não fará recuar o fascismo; Também não dará sossego Às famílias sem arrimo Dos mortos por Covid sem auxílio Deixados à própria sorte Por um projeto de poder Que tortura, mata e rouba Sonhos, vidas e esperanças; E sem pudor, ainda tripudia De quem morre pela inação e descaso, Abandonado ao próprio acaso, Pois a caneta famosa Só pode assinar Recursos para burguês E tantas besteiras que não Não interessam ao povo Definhando de fome Sem dinheiro pro pão... Enquanto, num efeito manada, Milhões procuram um herói - ou um Deus Pra seguir até morrer, Abraçados a outra bandeira, Orgulhosos sem ter motivo... Foda-se o perdão Que vem com a tua proposta Nesse moralismo pequeno burguês e cristão. Não concilio com a indiferença, Não abraço a inconseq...

Sem o Velho Amor

Já não sei mais do amor... Aposentei as entregas, Já não corro distâncias, Só me escondo, E vou dedilhando Cordas soltas Enquanto me vejo desprezar Versos fáceis, flores sonsas... Sem a lua no tempo, Fito a longa espera Do silêncio dos cães Do final das novelas Onde o sono aplaca O barulho das casas Quando o homem sem paixão Segue firme em seu compasso...