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Poemeto da Noite Fria

O frio amotinado Transpira como a noite que se inclina Perante a chuva Descendo como torrente intrépida. As horas frias Abraçam a solidão Encaram e encantam Meu olhar sincero Tempo objetivo - Histórias inóspitas, Momento incerto... O caminho borda silêncios, Rumina tranquilo Os medos do tempo ácido As bordas dos sonhos esquecidos.

Escrever

Sempre me preocupo com a forma. A forma com que escrevo E disponho sutilmente cada palavra. A forma com que noto e exponho Sonhos e vulnerabilidades. Não me importa Quem escreve mais bonito, Como dita as palavras, Como explica cada ponto. Bordo as palavras Mergulhando em mim mesmo, Buscando respostas ou fazendo perguntas, Usando um dom que a mim se apresentou. E assim, nem percebo tanto... Vou tecendo histórias, Rompendo meus meios silêncios, Amando a solitude da escrita, Escrevendo a cada dia Como se ainda fosse o primeiro.

Caminho

Caminho tranquilo. Caminho sozinho. O peso das escolhas Já não me aflige e machuca tanto. Caminho pensativo, Não tão machucado Quanto estive outrora. Já dou leves passos, Olho para os lados, Mesmo calado e compenetrado. Caminho silente. Caminho esperançoso. Já não caminho só, Mesmo sozinho. Me percebo em meio à multidão Que não me percebe E que não pode me entender. Caminho pensativo, Calado e tranquilo. E caminho sonhando talvez Com bons amigos, Silêncios e espaços diversos Para essa constante aventura Que é o simples ato de viver.

Terra em Ebulição

O planeta vive em ebulição. Gente sem casa, Gente sem comida, Gente sem escolha, Gente sem chão. A miséria grita. Em cada canto do planeta, Gritos abafados ecoam. Gente morrendo por golpes de Estado, Gente morrendo por ouro que nunca viu, Gente existindo sem viver, Gente sendo nada Mesmo respirando, Mesmo encarando a vida com a cabeça erguida. É tudo questão de mérito, dizem. Gaste menos, invista mais. Aceite a escravidão, Os massacres e genocídios, Golpes de Estado que trarão a liberdade do petróleo Escoando para terras estranhas Por pouco, enquanto sangra inclemente Um país inteiro e seu humilde povo. Os príncipes, lordes, burgueses, Todos eles sorriem Com a máquina mortífera Com amplos extermínios. Seus lucros aumentam. Que lhes importa o valor  da vida? Se o lucro não para hora alguma, E todo o seu dinheiro cria silêncios, Removem culpas, encobrem esquemas E vamos aceitando esses massacres, Não brigamos mais, não temos mais dilemas E assim naturalizamos não olhar o outro, Seus ...

O Tempo da Noite

Noite fria, tempo cinza... De fora ecoam os sons do brejo A sinfonia do campo Entoada por sapos, rãs e cigarras. Ao longe, as siricoras Chamam a chuva Que tímida, ainda não se apresenta. Tempo frio, noite cinza... Sábado à noite, calmaria. Bem longe, a ponto de não ouvir nada Pessoas cantam, dançam, Vivem o carnaval Sonham e sorriem O instante, um recorte Volúvel, o tempo que escorre Na vida sem fim. Noite adentro, calmaria. As estrelas se esconderam Para a chegada da chuva prometida Chamada pela sinfonia E que abraça forte Os foliões Como também intimida sem querer Os despossuídos, sem sombra ou abrigo, Que ignorados todos os dias Estão sempre na labuta Tentando simplesmente - sobreviver. Noite estranha, tempo vivo. O instante é um mistério, E a luz do silêncio Nos faz perceber Que em meio às dores e contradições Ainda é importante amar Sonhar, querer plenamente ousar e viver.

Afetuosidade

 As trevas lá fora Dançam em silêncio. Não rio, nem choro: Já não sei o que ou o quanto sinto, Quem sou, ou o que fui. Lá fora as cigarras Esperam a chuva Que insiste em vir furtiva Na madrugada. A vida habita e segue Nas margens do silêncio À sombra do tempo que passa E que hoje nada diz. Ah, como eu queria Amar me sentindo alegre O cheiro de uma simples flor Sorrir mesmo com o tempo esguio Olhar a Lua sem medo do frio, Dormir e acordar com algo sincero Cheio de entregas, obstáculos, medo e paixão, Divagando nos meandros de um olhar, Trilhando o caminho para algo concreto Um dengo, um afeto Realmente maduro para o meu coração.

Mais um dia comum

 O arco-íris num dia frio surge rápido e apagado indiferente frágil sorriso enquanto o Sol impõe sua luz vibrante. O dia frio e vacilante Assoma atrás dos morros traz cheiros e lembranças de tempos e palavras distantes e assusta a gente por não saber como encarar o que fomos. O dia abraça a gente com o olhar diferente do Sol que traz calor das horas que correm tranquilas e do silêncio calmo nublado tempo que edifica.

O som do silêncio

Não procuro nada. Nem mesmo palavras. Falo pouco, exponho pouco, penso muito. Silencio muito. E o faço sabendo Que ninguém vai perguntar nada. A vida adulta é uma correria. Corremos para ter tempo E que tempo a gente tem? Quanto mais o procuramos, Mais ele escorre, fogo Como amizades e sorrisos que se perdem E que não voltam jamais. Não exponho nada. E quero tudo o que me faz sorrir - Não todos os dias - Ninguém é sempre feliz... Quero um mundo de paz Ou ao menos paz no país. E ver o povo sonhando Tendo bons motivos para isso. E acordar todos os dias Tendo poucos e bons amigos, Boas conversas, um bom trabalho, E alguns leves sorrisos diários que me envolvam inteiro E transmitam o amor Que anda tão escasso, frágil, calado Nesses dias estranhos De silêncio e pouco frescor.

Poema Reclinado

O dia se inclina Cálido sobre a serra E reverbera o silêncio das mensagens Que não mais foram escritas. O amor, o choro, o grito De querer te reencontrar Foi substituído pelo calmo olhar meu. Distante, contemplativo, Sonho alto e sou cativo Da realidade que se apresenta. As plantas verdes Sincronizadas São um sinal de esperança vibrante Um canto silencioso Da paz silenciosa e gritante Que o amor, para mim, um dia será.

Ano Velho, Ano Novo

Foi um ano complicado. Muita energia gasta, Labutas incertas E mesmo assim - é certo, eu sei, Vencemos dia a dia Os percalços na estrada. Foi um ano difícil. Poucos sorrisos, O olhar vago e taciturno, E mesmo assim, Em meio às noites de pouco sono, Enfrentamos os medos E seguimos. E o ano que termina E abre a porta pro outro Transborda de poesia Ao renovar as esperanças Abrir caminhos E encantar com a perfeição Do divino manifestada no instante E na paisagem.

Projeto de Sociedade

Não somos só machistas. Vivemos em um mundo Onde o dinheiro impera, E onde a mulher, o negro, o indígena, Quem ama alguém do mesmo gênero, Não pode viver sem permissão De gente que não sente a dor do outro, Gente incapaz de entender Qualquer outro corpo, mente, coração. Gente estúpida E que em sua estupidez Detém o poder E com ele faz o que quiser. Homens que matam esposas, amantes, Namoradas, namorados, E que, a despeito de todas as provas, Podem virar vereadores, prefeitos, deputados. A vítima - morta em vida Ou morta por inteiro - É quem de fato fica presa Para sempre Fadada ao nada, Incapaz de receber uma reparação, Mais um número de estatística Na multidão, Mais um rosto desconhecido De alguém que morreu futilmente. E seguimos calados, Seguimos indiferentes, Com nossos discursos padronizados E religiosidades doentes, Na falsa paz anestesiados Mentimos para os nossos corações e mentes Aceitando esse mundo cinza e sufocado Para não lutar por um novo mundo De respeito às diferenças E...

Um Menino

Há mais de dois mil anos Numa tenda ou curral coberto No agreste Oriente Nasceu um simples menino Um menino que faria história. Longe dos palácios e seus luxos Um rei nascia neste mundo Sem pompa, sem visitas nobres, Alguns pastores, os animais ao redor, Sua mãe e seu pai adotivo, Cercados por anjos Que, a postos, tudo observavam. Um rei nascia tão discretamente Que só uma estrela deu o sinal Que veio lá do Oriente Anunciando a vitória que vinha Sobre o mal. Um rei que não quis ser político Posto que seu reino era divino E que trazia valores contrários À moral vigente na civilização. Um Deus humano, Rei Menino, Que, encarnado, se fez peregrino E iluminou o mundo Com o amor e a oração.

Resoluto e Sossegado

Tudo é silêncio. A noite é fria sem um abraço. E eis que as lembranças me atordoam, Me deixam estupefato, Numa aparente insensibilidade Que me fere. Sempre fui errado Mesmo tentando fazer o certo. O natal vem perto... Quem sabe o amor a dois não seja o meu amor. Quem sabe eu sempre estive errado em querer E nunca amei alguém, Só tentei me perder Num emaranhado de paixões Com várias faces de um ninguém. Talvez toda a intensidade Tenha sido apenas meu lado ingênuo Que achava bonito a solidez romântica E viu ruir dia a dia Os sonhos diante da realidade eminente. Mas, se nunca amei, Sendo o rei do gelo Sem com ele conviver Ou dele gostar, Tão bem fingi que eu - Tão sonhador que sou - Sempre deixei um tanto De mim em cada relação Em cada gesto, olhar, verso, cor ou objeto E, se nunca amei, Tampouco fui amado, E se eu sou alguém Que não merece uma simples amizade - Posto que não amo, E não me porto como objeto Ao bel prazer de quem bem desejar - Também sou alguém que, no desapego da distânci...

Poema do Quarto

O quarto fechado. Tudo quieto, tudo calmo. O vento lá fora caminha suave, Como quem desfila, Como quem perfila As curvas e obstáculos Que a paisagem traz. Não sou mais um moço No sentido de bem jovem. Sou novo; entretanto, hoje já sei: Se quero a chuva, a chuva abraçarei. Se quero o sol, o sol amarei. Já não posso mais brincar com talvez... A vida só corre, E eu quero viver Sentir, me permitir, Amar e conhecer, Sorrir e querer Encarando o tédio e o sofrimento Sabendo que a vida não é sempre Sobre a alegria, Mas sobre as variações Entre sorrir, chorar e querer.

Noite Escura

 A lua hoje está recolhida. Inquieto está meu coração. Olho os dias correrem, E eu ansioso, parado, Com pressa e pressão Triste, calado e indiferente. Misto e incerto me percebo. E cada vez mais só, Sem medo, mas confuso. Quero dar um salto Rumo ao que espero Mas temo o pedregulho do caminho, Possíveis abismos invisíveis, A falta de palavras amigas e duras, Um amor - já não sei se conheço - Que me vire do avesso Mas não faça, no meio do caminho, Perder-me - a qualquer hora - de mim.

Lua Impassível

 A Lua que hoje se apresenta Me traz lembranças de outro mundo De um jovem universitário Intenso e urbano Movido apenas por paixão Descendo e subindo ladeiras Imbuído de arte e poesia Via tudo em preto e branco E contemplava as noites claras À espera... De quê, afinal? Dos sonhos do futuro Os quais eu nem sabia Quais eram, e ainda hoje não sei. Talvez a velha ansiedade De sempre correr atrás - Do quê, não sei - Me atraísse à Lua E me fizesse sonhar Com sorrisos, histórias, carreiras Fugindo do real e habitando Um mundo distante - Dos sonhos que povoam o coração...

Recôndito

 Sou poeta Mas também um homem comum. Não sou bonito por fora: Um tanto de poros no rosto,  O aspecto austero, Mesmo não sendo sério Ao longo de quase todo o dia. Talvez seja bonito por dentro: E ainda assim tenho dúvidas... E ainda assim me assusta Não saber até hoje Se de fato já amei alguém. Eu sou uma sombra em silencio Alguém que escreve E fora a escrita Não se manifesta Se esconde em si... Eu sou o que posso ser Alguém dessemelhante Do suposto revolucionário que era há um tempo Do romântico incorrigível Do sujeito que combatia a religião E que expunha o que pensava Sem pensar tanto. Talvez seja um hipócrita... E no entanto Só queria amar alguém sem muito medo Sem tanta leveza, numa entrega consciente Um amor discreto e sutil Um sentir cotidiano e diferente... Mas não sei se para mim Esse amor existe E se um dia, num sorriso, Entenderei seu querer sincero e independente.

SALA DE ESPERA

Tempo de espera... O dia correu em séria monotonia. As paredes verdes e frias Com seus azulejos brancos, quadrados Afligem as pessoas Sem notícia e aglomeradas. É gente que entra e sai Cheios de incertezas e aflições. Gente conversando pra correr o tempo, Gente sem tempo para a paciência e o silêncio Gente tentando esfolar o compasso das horas. E o dia se esvai... A noite encosta e se apresenta. As horas sussurram ríspidas ou indiferentes Múltiplas idéias - boas e toscas, Carregam medos inúteis, Saudades presentes e mesquinharias sem motivo.

Folhas ao Léu

 Ando preocupado. Não com as folhas que caem E insistem em me transportar Para dias e anos atrás Quando era outro, Quando tudo parecia certo Mesmo imerso no caos. As folhas caem E me aflijo Com cinza - marrom do tempo seco Que enfraquece o verde da paisagem. O tempo corre e eu caminho... As folhas caem, E as flores dos ipês se vão, Enquanto o Flamboyant retoca o dia Com suas pétalas insanamente bonitas. As folhas caem, E a ansiedade vem crescendo Como a saudade do amor perdido, Enquanto acesso a esperança nos sonhos Como instrumento de coragem, força, luz e abrigo.

Dia Intenso

Foi um calmo e lento dia. Carregado, claro e sombrio... Foi um calmo e lento abismo De silêncio incontido. Foi um sonso e belo dia De saudades que não sei De amores que pensei - Seriam intensos e eternos. Foi um dia sombrio e lento... Carregado, calmo abismo... Sem um claro Amor, muita saudade  (Já faz um tempo!) De ter um amor intenso e incontido...