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Encruzilhado

Não me perco em palavras. Me ausento dos sonhos em silêncio. Já não me entendo, Pouco me conheço E se hoje me lanço Num novo e incerto salto - Sem respostas, recuo... Saio do caminho de nuances várias, Caminho no asfalto E não me perco mais Mais do que perdi. E já não sofro mais Com minhas armaduras de solitário Que me cabem E não permitem esperar respostas Que claramente não vem.

Vibração

Ah, se a gente pudesse... Pudesse sorrir de novo Diante dos olhos intensos Da bela mulher que desconheço. Moça negra, cabelos escuros, Com cachos tão belos Quanto um dia de chuva E a gente escondido Só ouvindo os sons do ambiente, E do tempo, os rangidos... Ah, se da História Essa mulher me contasse histórias Mesmo do que não viveu Ficaria atento ouvindo E tão leve, simples, sorrindo, Perderia meu olhar no teu, E inebriado de paz e sintonia, Ah, eu creio! Te amaria, Como ninguém jamais a amou Depois que te conheceu.

A Poesia e o Poeta

O poeta... Seria um escravo ou artesão? Preso às palavras Que liberta em transe Ou diante de muito esforço Ele sofre e respira tranquilo Sorri e chora em meio à vida Ruidoso silêncio Mistério e  turbilhão. Sua patroa, ou dona (?) (Ninguém sabe ao certo!) Segue abstrata Flui como rio diante do deserto... Palavras, artesanato, atitudes, sonhos. A poesia segue viva Na consciência, permeando a existência Dos homens que, dia após dia, Mudam sempre a vida E os rumos da história. E assim a poesia Salva vidas, transforma rumos, Faz a lida menos sofrida, Brilha o cinza, ferve o azul... Ela é livre, e borda o destino Do homem, que se fazendo menino Relembra de si para poder se entender.

Poema para a Chuva

Chove a conta gotas E, no entanto, tudo segue encharcado. As palavras esquentam o silêncio, O silêncio encharca as expectativas Que se dispersaram com o decorrer do dia. A mente inquieta corre... Precisa de mais calma e cores. Olha o tom cinzento dos telhados Ouve o som das folhas que caem E soltas, se misturam ao barro E moldam o quintal Com seu molhado chão. O dia preserva sua beleza De tempo frio e opaco E me convida a refletir Sobre os sonhos, desejos e cansaços.

Em Campo

Caminhando sobre a terra Cheia de brejos Repleta de lama Num lugar que respira a história Dinâmica e constantemente divergente Que mesmo sem um vestígio Do ar colonial de antigas casas da elite Tem um povo que ri  - Sonha e insiste Em viver no seu pedacinho de chão... Amo esse quilombo E esse cheiro de terra molhada. Amo o campo firme e vibrante... E amo a tortuosa, íngreme estrada. Gosto do tempo que se fecha E da noite que já se aproxima Do vento que encosta na testa Do sol que no campo se inclina E da vida que a vida atesta Na simplicidade quilombola e campesina...

Reflexão Bucólica

Há muitos dias O céu parece encoberto E quase não se vê a noite estrelada; O tempo escuro Traz o frio Amigo dos ares lentos Nas noites de março e abril. Hoje, não tive medo do dia. Hoje, andei devagar cada passo. Ainda que sonhos fujam E sigam escorregando das mãos, A vida transcorre -  Longo mistério levemente descoberto... Hoje, não quis navegar Na estranha melancolia De me agarrar a passados impossíveis, Sigo cioso pelos sonhos do futuro, Desejando o melhor dos mundos Ainda que siga sendo uma grande utopia Como um olhar e um sorriso Que possam apresentar novos caminhos E sonhos diversos para um novo eu.

Um Homem Fatigado

 O frio é companheiro, grande amigo. O tempo - pouco gentil - espreita e corre. É tanto sonho, tanto sono, cansaço e culpa Por não saber o que me deixa triste, O que me deixa fraco, o que me faz ausente. Já não sou uma criança, Embora às vezes assim me sinta. As crenças e desejos mudaram, Sonhos morreram, outros floriram Sem saber o porquê. E, mesmo assim, Faltam sinceros sorrisos E conversas duras, beijos reais, abraços singelos (Floridos anelos!) Que venham da mulher amada... - Mas quem ela é, meu Deus? Se já segui nessa estrada E já creio que sou o livramento de tanta gente... Em silêncio, penso, (Nem sei se sonho) Com um futuro estável, feliz, indiferente À validação sincera e inconsciente De minha solitária e discreta existência Por parte da triste e fria civilização.

O Homem

O homem calado Está aflito, ansioso, sobressaltado... Grita em silêncio, Sonha cansado. O homem aflito dorme, E sonha sempre aperreado, E clama sempre pelo futuro Tão sonhado e muito desencontrado. O homem solitário e tenso Já não sabe Onde se perdeu, Em qual porto perdeu o amor. Sorri automático, mede as palavras, Não se entrega à sutileza dos lugares, Constrói saudades enlatadas Prontas para serem arquivadas Num grande e velho barril.

Poemeto da Noite Fria

O frio amotinado Transpira como a noite que se inclina Perante a chuva Descendo como torrente intrépida. As horas frias Abraçam a solidão Encaram e encantam Meu olhar sincero Tempo objetivo - Histórias inóspitas, Momento incerto... O caminho borda silêncios, Rumina tranquilo Os medos do tempo ácido As bordas dos sonhos esquecidos.

Escrever

Sempre me preocupo com a forma. A forma com que escrevo E disponho sutilmente cada palavra. A forma com que noto e exponho Sonhos e vulnerabilidades. Não me importa Quem escreve mais bonito, Como dita as palavras, Como explica cada ponto. Bordo as palavras Mergulhando em mim mesmo, Buscando respostas ou fazendo perguntas, Usando um dom que a mim se apresentou. E assim, nem percebo tanto... Vou tecendo histórias, Rompendo meus meios silêncios, Amando a solitude da escrita, Escrevendo a cada dia Como se ainda fosse o primeiro.