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Mais um dia comum

 O arco-íris num dia frio surge rápido e apagado indiferente frágil sorriso enquanto o Sol impõe sua luz vibrante. O dia frio e vacilante Assoma atrás dos morros traz cheiros e lembranças de tempos e palavras distantes e assusta a gente por não saber como encarar o que fomos. O dia abraça a gente com o olhar diferente do Sol que traz calor das horas que correm tranquilas e do silêncio calmo nublado tempo que edifica.

O som do silêncio

Não procuro nada. Nem mesmo palavras. Falo pouco, exponho pouco, penso muito. Silencio muito. E o faço sabendo Que ninguém vai perguntar nada. A vida adulta é uma correria. Corremos para ter tempo E que tempo a gente tem? Quanto mais o procuramos, Mais ele escorre, fogo Como amizades e sorrisos que se perdem E que não voltam jamais. Não exponho nada. E quero tudo o que me faz sorrir - Não todos os dias - Ninguém é sempre feliz... Quero um mundo de paz Ou ao menos paz no país. E ver o povo sonhando Tendo bons motivos para isso. E acordar todos os dias Tendo poucos e bons amigos, Boas conversas, um bom trabalho, E alguns leves sorrisos diários que me envolvam inteiro E transmitam o amor Que anda tão escasso, frágil, calado Nesses dias estranhos De silêncio e pouco frescor.

Poema Reclinado

O dia se inclina Cálido sobre a serra E reverbera o silêncio das mensagens Que não mais foram escritas. O amor, o choro, o grito De querer te reencontrar Foi substituído pelo calmo olhar meu. Distante, contemplativo, Sonho alto e sou cativo Da realidade que se apresenta. As plantas verdes Sincronizadas São um sinal de esperança vibrante Um canto silencioso Da paz silenciosa e gritante Que o amor, para mim, um dia será.

Ano Velho, Ano Novo

Foi um ano complicado. Muita energia gasta, Labutas incertas E mesmo assim - é certo, eu sei, Vencemos dia a dia Os percalços na estrada. Foi um ano difícil. Poucos sorrisos, O olhar vago e taciturno, E mesmo assim, Em meio às noites de pouco sono, Enfrentamos os medos E seguimos. E o ano que termina E abre a porta pro outro Transborda de poesia Ao renovar as esperanças Abrir caminhos E encantar com a perfeição Do divino manifestada no instante E na paisagem.

Projeto de Sociedade

Não somos só machistas. Vivemos em um mundo Onde o dinheiro impera, E onde a mulher, o negro, o indígena, Quem ama alguém do mesmo gênero, Não pode viver sem permissão De gente que não sente a dor do outro, Gente incapaz de entender Qualquer outro corpo, mente, coração. Gente estúpida E que em sua estupidez Detém o poder E com ele faz o que quiser. Homens que matam esposas, amantes, Namoradas, namorados, E que, a despeito de todas as provas, Podem virar vereadores, prefeitos, deputados. A vítima - morta em vida Ou morta por inteiro - É quem de fato fica presa Para sempre Fadada ao nada, Incapaz de receber uma reparação, Mais um número de estatística Na multidão, Mais um rosto desconhecido De alguém que morreu futilmente. E seguimos calados, Seguimos indiferentes, Com nossos discursos padronizados E religiosidades doentes, Na falsa paz anestesiados Mentimos para os nossos corações e mentes Aceitando esse mundo cinza e sufocado Para não lutar por um novo mundo De respeito às diferenças E...

Um Menino

Há mais de dois mil anos Numa tenda ou curral coberto No agreste Oriente Nasceu um simples menino Um menino que faria história. Longe dos palácios e seus luxos Um rei nascia neste mundo Sem pompa, sem visitas nobres, Alguns pastores, os animais ao redor, Sua mãe e seu pai adotivo, Cercados por anjos Que, a postos, tudo observavam. Um rei nascia tão discretamente Que só uma estrela deu o sinal Que veio lá do Oriente Anunciando a vitória que vinha Sobre o mal. Um rei que não quis ser político Posto que seu reino era divino E que trazia valores contrários À moral vigente na civilização. Um Deus humano, Rei Menino, Que, encarnado, se fez peregrino E iluminou o mundo Com o amor e a oração.

Resoluto e Sossegado

Tudo é silêncio. A noite é fria sem um abraço. E eis que as lembranças me atordoam, Me deixam estupefato, Numa aparente insensibilidade Que me fere. Sempre fui errado Mesmo tentando fazer o certo. O natal vem perto... Quem sabe o amor a dois não seja o meu amor. Quem sabe eu sempre estive errado em querer E nunca amei alguém, Só tentei me perder Num emaranhado de paixões Com várias faces de um ninguém. Talvez toda a intensidade Tenha sido apenas meu lado ingênuo Que achava bonito a solidez romântica E viu ruir dia a dia Os sonhos diante da realidade eminente. Mas, se nunca amei, Sendo o rei do gelo Sem com ele conviver Ou dele gostar, Tão bem fingi que eu - Tão sonhador que sou - Sempre deixei um tanto De mim em cada relação Em cada gesto, olhar, verso, cor ou objeto E, se nunca amei, Tampouco fui amado, E se eu sou alguém Que não merece uma simples amizade - Posto que não amo, E não me porto como objeto Ao bel prazer de quem bem desejar - Também sou alguém que, no desapego da distânci...

Poema do Quarto

O quarto fechado. Tudo quieto, tudo calmo. O vento lá fora caminha suave, Como quem desfila, Como quem perfila As curvas e obstáculos Que a paisagem traz. Não sou mais um moço No sentido de bem jovem. Sou novo; entretanto, hoje já sei: Se quero a chuva, a chuva abraçarei. Se quero o sol, o sol amarei. Já não posso mais brincar com talvez... A vida só corre, E eu quero viver Sentir, me permitir, Amar e conhecer, Sorrir e querer Encarando o tédio e o sofrimento Sabendo que a vida não é sempre Sobre a alegria, Mas sobre as variações Entre sorrir, chorar e querer.

Noite Escura

 A lua hoje está recolhida. Inquieto está meu coração. Olho os dias correrem, E eu ansioso, parado, Com pressa e pressão Triste, calado e indiferente. Misto e incerto me percebo. E cada vez mais só, Sem medo, mas confuso. Quero dar um salto Rumo ao que espero Mas temo o pedregulho do caminho, Possíveis abismos invisíveis, A falta de palavras amigas e duras, Um amor - já não sei se conheço - Que me vire do avesso Mas não faça, no meio do caminho, Perder-me - a qualquer hora - de mim.

Lua Impassível

 A Lua que hoje se apresenta Me traz lembranças de outro mundo De um jovem universitário Intenso e urbano Movido apenas por paixão Descendo e subindo ladeiras Imbuído de arte e poesia Via tudo em preto e branco E contemplava as noites claras À espera... De quê, afinal? Dos sonhos do futuro Os quais eu nem sabia Quais eram, e ainda hoje não sei. Talvez a velha ansiedade De sempre correr atrás - Do quê, não sei - Me atraísse à Lua E me fizesse sonhar Com sorrisos, histórias, carreiras Fugindo do real e habitando Um mundo distante - Dos sonhos que povoam o coração...