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A Lênin

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Partiste, companheiro. Depois de tanto tempo, Cansado de lutar, Trôpego, sem forças... Descansou sua alma em algum lugar, Tão certo da amizade que deixou, Grande amigo que cuidou do meu cansaço Quando tudo parecia névoa E nada trazia esperança Aos meus sonhos. Adeus, amigo! Guardo comigo o carinho E a gratidão que mantenho Viva e forte Mesmo com a dor do teu fim.

Questão

Decerto já amei... Será que ainda amo? Há tempos já chorei, Agora só reclamo. E só finjo que nada Se passa ao meu redor. Mas bem nos olhos sinto A dor que vem de se indispor A um vago sentimento... Seria ainda amor?

Poemeto

As flores caem sobre o concreto... Seria a morte do romantismo? Quem sabe o cansaço da esperança... Despedaçado o caminho Dispersa As flores brancas e sem jardim.

Sem Ela

Sem ela eu tenho caminhado... Alguns dias parecem impossíveis; Quando em silêncio me percebo E os olhos buscam vagamente Qualquer sinal no horizonte, Doce resquício de um beijo. Sem ela eu tenho estado; E os dias caminham longos, Com permissão pra caminharem Sempre bem devagar. Sem ela voam as palavras; Fujo da doçura no agir... Pois eu sem ela ainda busco Novas certezas no caminho; Pois sei que ela já seguiu Por outra reta Que nem viu onde fiquei, Aonde estou... Sem ela eu sei que ainda gosto E guardo as flores que não dei; Será que ela ainda guarda Todo o amor que eu deixei? Ou foi apenas uma ilusão Que por um tempo alimentei? Sem ela sobram as dúvidas E as lágrimas que não chorei...

As Ruas e as Gentes

As ruas cheias de gente com fome... Gente correndo, gente sem tempo, Gente sem olhar pra gente, Gente cansada e descontente. As ruas cheias de sonhos. Mulheres humilhadas e sofridas, Homens negros vendendo bugigangas; O assédio, racismo, a humilhação. As ruas cheias de carros... Carros com gente Com tão pouco dinheiro, E mais gente Com tanto capital Que se faz ausente do contato com os outros, Competente ladrão de sonhos e desejos, Alimenta os mais vis sentimentos Nas ruas, Em casa, donos do mundo que são Ou pretendem Com todo o seu poder Que encaminha o futuro em direção ao nada, Abismo de não ser o que um dia existiu.

Um Quadro

As ruas quase desertas. Pessoas correndo: fogem? É escuro, e a chuva ameaça Quem caminha longe de casa. É noite. Fico à espreita Do medo que desabrocha, Enquanto encontro os pingos de chuva Que não assustam meu jeito incerto e anestesiado.

Discorrer

Caminho sobre o caos. E afago o medo. Meio termo Nunca foi caminho. Talvez espinho Que sirva pra fingir derrotas. As palavras estão postas. O silêncio, em destaque. Mas parece que se fechou aquela porta E a postos, divago pelos caminhos...

A Luz

Agora há luz por toda a casa. É tudo transparente, vazio e monótono. Como as lembranças que assomam E somem quando caminho ao longe. Voam as aves lá fora. Gatos vadios em plena atividade Caminham entoando suas serenatas, Charme de amor, escândalo, barulho. Olho pro chão... Procuro no espelho As marcas de desgastes. Olheiras, sono perdido,  O jeito cansado e triste. Mas sussurro meras palavras E me ausento do medo De tudo o que sinto. Agora há luz por toda a casa... Voam as aves lá fora, Entoam os gatos a sua canção, Enquanto, ausente do medo, Sussurro meras palavras...

O Tom da Quinta

Soa a solidão nas torres das igrejas… À espera do vai e vem dos badalos Que não mais ressoam. O dia de sol, quente e vazio, Confirma os rumores da vida. Navegam, bem longe, os barcos… São sonhos e dores, flutuando imponentes sobre o mar. Aqui e lá, o cansaço da pobreza E a tristeza, companheira inseparável… Mas é quinta feira, dia claro. Dia de luta, mais uma vez. Dia de sonhos, mágoas… Dia de vencedores? Vencidos? Dia comum, vago e vazio.

21 de Janeiro

Atravesso a cidade Com sono e frio, Numa noite a mais de verão... Brotam sorrisos nas faces Por motivos que desconheço. Alio o silêncio à quietude E caminho com meu guarda chuva. Voam os pássaros tão longe dos ninhos. É a liberdade de transitar Por qualquer caminho... Viver o aqui e agora, Sem pressões e pressa. Feliz o homem não condenado A carregar um fardo De desesperança e dores. Que é livre, e o sabe: Ou será infeliz Pela solidão que  a sua condição impõe? Caminhando com meu guarda chuva, Enfrentando o vento, Caminhando só, Olho para os pássaros livres E me vejo preso Enquanto sigo, sem saber o rumo, Incerto ao certo de tudo.