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Idealização

Árvores pacatas balançam Ao sabor do vento, Passivas às intempéries do tempo, Esquecidas do seu real valor. Tua pele macia Faz com que eu tema Tocar em teu rosto, Pois percebo impurezas No meu toque - pouco sutil. Esses modos de menina,  Nesse corpo de mulher, Com um sorriso que fascina, Mesmo quando não o quer, Fazem os dias sempre novos, E as certezas se perderem Em meio às águas do cais, No doce embalo do mar  [ E na contemplação dos belos olhos teus. São Luís, 26 de agosto de 2017

Revisita

Olhos voltados pro chão... Tateando no escuro, Escavo as lembranças, E refugo dores sofridas. Exorto palavras cortantes Usadas contra os meus sonhos, Em momentos de total desprezo Aos teus gestos,  e a mim mesmo. Não busco saber se algum dia Posso nada ser Ou me distanciar do que me faz ser,  Enquanto minha mente inconstante Traz a mim saudades do que nunca vivi.

Caminho

Desço a ladeira lentamente... Meus sonoros passos Confundem-se com o silêncio das ruas, Escuros caminhos que me fazem seguir. Observo o céu,  escuro e calmo. As nuvens cobrem- lentamente A lua que oculta o seu riso. Encontro em minhas mãos O segredo dos tristes modos Que afastam a quem não expulso Do convívio com meus gestos toscos. Caem as folhas das árvores... Cai a noite enluarada, Vão embora as lembranças Do que nunca existiu. São Luís,  19 de agosto de 2017.

Elaine

Pele alva, cabelos pretos. Não olhaste pra trás, Apenas fez a curva E mudou seu rumo. Não sei se me preocupo; Não tenho quaisquer motivos, Mas estou à espera constante Do teu retorno. A lua ficou da cor dos teus cachos Quando partiu. E fiquei em silêncio, Contemplando uma noite escura Com várias luzes na cidade. Parece que a tua ida Fez as árvores mais amigas, O sol mais intenso E o luar um abismo de melancolia. São Luís, 6 de Setembro de 2016.

Contradições

Olhos distantes nem sempre miram o infinito. Talvez seu segredo não seja tão puro. Busco em minhas lembranças a certeza De que os enganos não possuem mais razão de ser. Sua doçura por vezes me deixa atônito. Ao mesmo tempo - parece distante, Como a águia que faz altos vôos, No distante horizonte que explora. Não há em teu silêncio quaisquer provas concretas. Aflitivos gestos de distanciamento Causam-me medo de uma tenebrosa constatação. Saberei se isso é amor, ou apenas um novo logro? Por fim, as árvores deixam cair suas folhas mais frágeis, Enquanto busco nesse crepúsculo As certezas desses gestos vagos, das palavras surdas E dos medos guardados.

Rayanna

Olhos profusos me atraem. Os teus me levam a lugares Distantes e enigmáticos, Em questão de segundos. Moça bonita  -  que parece uma índia, Você sempre esconde os melhores sorrisos, Deixando em gavetas de solidão A sua mais pura verdade. Moça bonita da pele morena, Tuas palavras encantam Num doce canto de silêncio Que só os teus olhos sabem expressar. Não sei o que há em você ... Apenas deixo meus olhos se encontrarem com os teus, Abandono a solidão dos meus passos, Sedentos dum espaço comum, Anseiam que,  com eles,  estejam os teus.

Chuva

Chove num dia de luz. Sinto esse cheiro de terra molhada, Doce composto de vida que se refaz... Tarde calma com essa chuva turbulenta, Revigora o verde das folhas tristes Dessas árvores que lutam pra se manter em pé. Vida que expõe seu brilho, Chove pra curar as dores De um modo esquecido... Deixa pra trás os amores De tempos distantes e perdidos Em instantes passados Em escalas de cinza e multicores.

Fim de Tarde

As nuvens se põem em contato Com meu olhar fúlgido. Distante em sonhos, vago em silêncios. As folhas caem ao chão... Suaves Como a brisa do mar  Que toca as falésias, Moldando com os dias que se vão. Silêncio traz um vago temor De perigos ocultos e atentos, Antemão de sofrimentos Sem certeza se hão de vir... Vago temor de palavras. Claro sol que reluz. Lento cair de folhas,  Vestígios de solidão.

Mundo(s)

Em silêncio, observo o dia que finda. Incontáveis erros afastam-se em meio Aos distantes e contidos gestos, Meu constante e insensível modo de ser. Vejo a grama em contato com o frio Dessa noite que anuncia o orvalho próximo. E vê: a lua se põe incompleta a rondar  Este céu violeta... Vejo as ruas escuras e sujas Onde ratos confundem-se aos pés De pessoas dispersas no entulho, Desterrados em meio às drogas. Ouço gritos distantes de dor, Foguetes, tiros... E um silêncio Repentino. Código de silêncio A ser cumprido. Palavras esquecidas. Igrejas tão próximas, esquecidas do povo Que está ao seu redor, fazem barulho: Mas - realmente - a quem falam? O silêncio talvez ajude a descobrir. Nesse panorama, busco a contemplação Do meu mundo - resquício De tudo que me inspira, Reforço dos meus propósitos. São Luís, 04 de agosto de 2017.

Recado

As flores murcham em meio a mãos cansadas. Gostaria de poder escrever mentiras, Mas aí está a vida, a qual não se pode esconder. Tente colocar suas mãos em frente aos olhos. E mesmo assim, vê: as máscaras caem, Como nossos direitos também. Você diz: Não há outro jeito, E eu teimo, insisto que tem. Você sonha com o dia No qual será igual ao opressor. Eu sonho com o momento Em que a desordem vença o medo, Deixando as dores pra trás. Você defende essa burguesia Que vive farta às nossas custas E nunca acha muito o que já possui. Você acredita que eles constroem um mundo melhor, Mas, até para eles - somos nós que construímos. Você diz que não toma partido. Mas na verdade, você mente. O seu silêncio diz mais Que suas palavras vazias. Você aceita tudo - e tenta Mostrar que é desconstruído. Engane-se... Enquanto pode,  O quanto conseguir suportar. Mas não esqueça: o futuro Que nos espera é o mesmo já esquecido na história.