Postagens

Mostrando postagens de fevereiro, 2020

Fragmentado

Às vezes, some a esperança... O olhar não sabe como reagir. A paisagem de concreto Toma lugar e assusta a praia. As horas correm. Às vezes, parecem jabutis. E o silêncio recompõe o cotidiano. As flores... Não as percebi. Estão lá fora, dispersas, Livres dos meus enganos. O homem que caminha só Não tem medo de seguir. À parte, esquece e esconde A vergonha que tem de seus passos, Modelando seus novos passos Com os sonhos que recomeçou... Lá, ao longe, Eu vejo o cansaço E a estranha solidão do medo. Poço de abismos, segredos. Conforto da ilusão de uma felicidade.

Nublado

Ameaça chover... As horas pingam Como lágrimas Do mar que se assustam. Correm as palavras Por espaços diversos, Seguem complexos  Os espaços no dia. E as flores caem, Inconstantemente, Como se desmancham os sonhos Que criamos sobre o ar, Sem hora certa, Tampouco ajustado destino.

A Roda

A pele negra. Dura abordagem no terminal de integração. Cassetetes a postos. São homens da lei, gorilas ou capitães do mato? As vozes sobrepostas. A autoridade instituída Pra agir arbitrariamente Sob as orientações de quem tem medo Do pobre negro sonhar Em ser livre. A indignação e o medo Se fundem no olhar. A roda da crueldade É rompida com o grito coletivo Levantado contra a injustiça. Talvez a esperança Nos dê a resposta precisa Que mude um pouco todas as vidas.

O Ocaso no Dia

Era um fim de tarde como qualquer outro na vida de Ana. Tomou banho, se enxugou com uma pequena e velha toalha, pôs o vestido colado no corpo. Na sala, sua filha Lélia e o pequeno Roberto a esperavam. Resolveu preparar um lanche, pra que não voltassem para casa com fome. Rápidos, se alimentaram. Em seguida, pediu reservadamente a Lélia que a esperassem sair. Ia para o trabalho. Ela argumentou que não podia ser vista com a mãe. O que pensariam dela? Diante do olhar triste e suplicante, cedeu. Pegaram o ônibus que chegava à avenida principal do bairro vizinho, Lélia numa cadeira atrás, Roberto e Ana conversando à frente. Sorriam, indiferentes no momento a tudo que se delineava ao redor. Lélia lembrou a mãe que estava próxima do ponto no qual desceria. Ana pagou rapidamente a passagem, atravessou a catraca, apertou a cordinha e desceu. Tendo descido, ainda falou a Roberto: "Vovó te espera amanhã, lá em casa. Amanhã tu dorme comigo." Ele sorriu. Ela também. Atravessou a avenida, ...

O homem com a caixa de tomates

O homem com a caixa de tomates, cansado, na cadeira de deficiente do ônibus. O neto ao seu lado, pessoas se amontoando. A vida em uma vaga perspectiva. Lembrara naquele momento, de sua origem, quase semelhante. A origem humilde, a casa de barro. As manhãs na roça, plantando milho, arroz, feijão… E no sangau com os irmãos e os pais, plantando a mandioca que, além da farinha que consumiam, daria uma boa ração pros porcos. A caça às rolinhas, tão pobres em suas existências quanto eles. Dava pena matar, as bichinhas. Crescera. As roupas usadas, dos irmãos mais velhos passavam pros mais novos. Crescera. A pobreza doía-lhe profundamente. A vida parecia mais cruel e inconstante… O horizonte em tom rosado, rodeado de vegetação densa e nativa, visualmente próximo aos campos da Baixada, não tinha mais encanto pra ele. Foi embora. Veio pra cidade. Guardou o passado como uma lembrancinha incômoda na gaveta de um guarda roupa. O tempo se encarregou das perdas e ganhos. Sumia a família na qual se cr...

O Verbo

O verbo se fez carne E veio para os pobres Trazer sua mensagem, Buscar justiça, Fazer a partilha do pão. O verbo se fez carne E nessa metamorfose Sentiu a dor do homem, Um ser tão imperfeito e frágil Esmagado pelo pecado, Imerso nas trevas Mesmo quando não percebe. O verbo se fez carne… Sangrou e deu a vida Para provar que o bem Precisa ser maior que o lucro e a ganância,  [E que a vida somente vale a pena Quando somos de fato amigos, Companheiros, profetas e irmãos...

Não Precisa Responder

Mesmo que eu negue, Meu coração ainda pulsa diferente Quando vejo as nossas fotos Que ainda não apaguei... Mesmo que eu saiba Que tudo acabou ali E que eu diga Pra mim mesmo Que aquele instante já passou, Sinto falta de um pedaço em mim E sei ao certo Que a dor de estar no deserto É a saudade que guardo em silêncio Da nossa história Presa nas fotos não apagadas, Ainda pulsa em mim.

Espere

Espere por salvadores da pátria Enquanto a casa afunde todos se afogam Na falsa paz. Ore de olhos bem fechados Enquanto a pobreza Assola e assume O controle de todas as direções, Moldando caminhos, recontando tristes histórias... Deixe tudo ser e estar Enquanto espera por mitos Ou salvadores da pátria Que ao lado dos nossos carrascos Garantem que tudo ficará bem. Navegue na indiferença Ou sorria do que devia desesperar Enquanto sarra por questões importantes Mas fora de contexto E viva com o pretexto De que luta em paz Enquanto milhares morrem Por viverem a luta Sem medo, em busca Do ansiado mundo De homens novos... Sonho de vida e libertação.

Insone (?)

Murros em ponta de faca São necessários? Não queira o contrário Das certezas que te fazem. A chuva é certa lá fora, Como os trovões e raios Mais tarde vêm. É noite, sem lua... Só luzes artificiais Em postes de trinta anos, Poços de histórias Sonhos Dispersos em lotes sem nexo Na cidade real, Cada vez mais densa, Triste, sofrida, cinza...

Fragmentos

Lá fora, o frio. Aqui, a falsa proteção. No canto, um velho violão... Acordes que nunca aprendi. O silêncio se fez claro Como telhado transparente. Direto, real, onipotente E a ele me deixei habituar. Não há o que temer; Há frio apenas. E um silêncio claro Como a vida.

Retalhos

Silêncio, praia, areia. Palavras ausentes há tempos. Flores, cactos, cartas. Livros e palavras. Suco batido, histórias ao chão. Tudo chove e vai Pra lugares que desconheço...