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Mostrando postagens de janeiro, 2020

A Lênin

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Partiste, companheiro. Depois de tanto tempo, Cansado de lutar, Trôpego, sem forças... Descansou sua alma em algum lugar, Tão certo da amizade que deixou, Grande amigo que cuidou do meu cansaço Quando tudo parecia névoa E nada trazia esperança Aos meus sonhos. Adeus, amigo! Guardo comigo o carinho E a gratidão que mantenho Viva e forte Mesmo com a dor do teu fim.

Questão

Decerto já amei... Será que ainda amo? Há tempos já chorei, Agora só reclamo. E só finjo que nada Se passa ao meu redor. Mas bem nos olhos sinto A dor que vem de se indispor A um vago sentimento... Seria ainda amor?

Poemeto

As flores caem sobre o concreto... Seria a morte do romantismo? Quem sabe o cansaço da esperança... Despedaçado o caminho Dispersa As flores brancas e sem jardim.

Sem Ela

Sem ela eu tenho caminhado... Alguns dias parecem impossíveis; Quando em silêncio me percebo E os olhos buscam vagamente Qualquer sinal no horizonte, Doce resquício de um beijo. Sem ela eu tenho estado; E os dias caminham longos, Com permissão pra caminharem Sempre bem devagar. Sem ela voam as palavras; Fujo da doçura no agir... Pois eu sem ela ainda busco Novas certezas no caminho; Pois sei que ela já seguiu Por outra reta Que nem viu onde fiquei, Aonde estou... Sem ela eu sei que ainda gosto E guardo as flores que não dei; Será que ela ainda guarda Todo o amor que eu deixei? Ou foi apenas uma ilusão Que por um tempo alimentei? Sem ela sobram as dúvidas E as lágrimas que não chorei...

As Ruas e as Gentes

As ruas cheias de gente com fome... Gente correndo, gente sem tempo, Gente sem olhar pra gente, Gente cansada e descontente. As ruas cheias de sonhos. Mulheres humilhadas e sofridas, Homens negros vendendo bugigangas; O assédio, racismo, a humilhação. As ruas cheias de carros... Carros com gente Com tão pouco dinheiro, E mais gente Com tanto capital Que se faz ausente do contato com os outros, Competente ladrão de sonhos e desejos, Alimenta os mais vis sentimentos Nas ruas, Em casa, donos do mundo que são Ou pretendem Com todo o seu poder Que encaminha o futuro em direção ao nada, Abismo de não ser o que um dia existiu.

Um Quadro

As ruas quase desertas. Pessoas correndo: fogem? É escuro, e a chuva ameaça Quem caminha longe de casa. É noite. Fico à espreita Do medo que desabrocha, Enquanto encontro os pingos de chuva Que não assustam meu jeito incerto e anestesiado.

Discorrer

Caminho sobre o caos. E afago o medo. Meio termo Nunca foi caminho. Talvez espinho Que sirva pra fingir derrotas. As palavras estão postas. O silêncio, em destaque. Mas parece que se fechou aquela porta E a postos, divago pelos caminhos...

A Luz

Agora há luz por toda a casa. É tudo transparente, vazio e monótono. Como as lembranças que assomam E somem quando caminho ao longe. Voam as aves lá fora. Gatos vadios em plena atividade Caminham entoando suas serenatas, Charme de amor, escândalo, barulho. Olho pro chão... Procuro no espelho As marcas de desgastes. Olheiras, sono perdido,  O jeito cansado e triste. Mas sussurro meras palavras E me ausento do medo De tudo o que sinto. Agora há luz por toda a casa... Voam as aves lá fora, Entoam os gatos a sua canção, Enquanto, ausente do medo, Sussurro meras palavras...

O Tom da Quinta

Soa a solidão nas torres das igrejas… À espera do vai e vem dos badalos Que não mais ressoam. O dia de sol, quente e vazio, Confirma os rumores da vida. Navegam, bem longe, os barcos… São sonhos e dores, flutuando imponentes sobre o mar. Aqui e lá, o cansaço da pobreza E a tristeza, companheira inseparável… Mas é quinta feira, dia claro. Dia de luta, mais uma vez. Dia de sonhos, mágoas… Dia de vencedores? Vencidos? Dia comum, vago e vazio.

21 de Janeiro

Atravesso a cidade Com sono e frio, Numa noite a mais de verão... Brotam sorrisos nas faces Por motivos que desconheço. Alio o silêncio à quietude E caminho com meu guarda chuva. Voam os pássaros tão longe dos ninhos. É a liberdade de transitar Por qualquer caminho... Viver o aqui e agora, Sem pressões e pressa. Feliz o homem não condenado A carregar um fardo De desesperança e dores. Que é livre, e o sabe: Ou será infeliz Pela solidão que  a sua condição impõe? Caminhando com meu guarda chuva, Enfrentando o vento, Caminhando só, Olho para os pássaros livres E me vejo preso Enquanto sigo, sem saber o rumo, Incerto ao certo de tudo.

Pingos

Cai a chuva Mais forte a cada segundo... Olho pro teto, Me assusto e aquieto, Embalado na rede Com os olhos bem abertos. Chove e assomam Imagens diversas Lembranças da infância, Os passeios de bicicleta Ou os pastoreios No tempo bucólico da história. Chove aqui e ali, E quem pode, corre lá fora. Ou se esconde nas sacadas E finge pensar (ou pensa) Em questões fundamentais Com quantos reais a gente passa Até o último dia no mês. Chove lá fora E o frio paralisa um pouco, Aquieta, Mas deixar a porta aberta Nem faz mal : é um alento Que uso nesse momento. É vida em movimento, Presente da vida e do tempo.

Caem as Flores

Digo ao tempo que não tenha pressa. A mágica da dor é vivida lentamente, Igual as lágrimas que caem No ausente Sussurro que faço contra o meu conformismo, Mas calo - e calado observo o mundo Indiferente Qual o gato da novela de Jorge Amado... Sigo e vejo O meu medo maior que o mundo Mas caminho na luz ou no escuro Com a mesma certeza suspensa. Ouço sons, vejo as flores caírem no concreto. São as histórias que caminham Vagando  À procura de quem as recolha Num armário recluso e fechado... Doce ou amargo, Esconderijo da esperança Ou desespero da dor.

Apesar de Tudo, Nós

Não chovia... Apenas as nuvens Pouco a pouco ameaçavam O resto do dia que aos poucos Parecia correr devagar. Chegaste... E mais queria eu Que fosse pesadelo esse momento. O olhar ferido, cortado, De alma infeliz e forçada, A boca sem beijos ou palavras, As lágrimas que não desciam por tristeza. Li a tua alma em segundos; Logo descobri - ou suspeitei. Dei o teu espaço, E hoje vejo o quanto me dói Aquele adeus, A tua partida repentina, O fim duma história de amor.

Entre a chuva e a noite

O dia se pôs. Mas eu estava ao teu lado. A chuva afligia o céu,  Mas quase como um encanto, A tua presença equalizou o tempo. Caminhamos serenos... Por vagos destinos, sondamos um sonho, Caminhamos no escuro. Paramos e olhamos O tempo sutil e lento Ao encontro das expectativas. Beijei a tua boca, Olhei em teus olhos Que colonizam aos poucos E com tão poucos olhares. Já sou escravo: o sei E não me assusto com isso. Caminhando aos poucos, Vivemos e descobrimos novos passos No descompasso que marca As novas armas da vida.

A Fórmula do Silêncio

Chove lá fora... A lua cheia se esconde. Cede espaço ao frio, Símbolo da saudade e do medo, Reflexos de minha alma solitária. Enquanto dormes, penso e guardo Impressões e fatos; Verso no sentido inverso, Refaço os sonhos e faço Da tua figura um abrigo. Escolho os chinelos e caminho Na casa que é quase o silêncio, Sentindo a falta de tua presença, Mas leve na tua ausência, Decerto com o tempo que corre Implacável e seguro de si.

Apenas um Lamento

Trafega o mundo numa encruzilhada. Com fogo e ferro se oprime, Com flores pouco se resiste. A vida na Terra em si anda triste. Há pouco o que celebrar. Os senhores da guerra Celebram o mundo. Tomam de assalto, Queimam e lucram. Ao seu lado religiões Que justificam pobreza e guerras. Vejo bonecos dementes A serviço de grandes corporações Ocupando governos e outros espaços, Enganando os pobres - largados À espreita de qualquer esperança na esquina, Se não aqui, talvez na outra vida, Parcelada dizimos altos e cobranças eternas. E assim caminha a Terra. Onde até a luz do Sol já é privatizada, A água não é direito de todos E a vida sem dinheiro Não é vida : e sim milagre  Enquanto dúzias de homens Vivem com as familias e cães Vidas de luxo e conforto Outros tantos vivem e morrem Sem ter nem o próprio chão Onde possam pôr os pés, Esquecidos da loteria Dos privilégios infinitos De homens astutos e cruéis, Psicopatas que brincam Com todas as nossas vidas.

Intensidade

Momentos intensos. Intenso medo. Mãos tremendo, boca seca. Voz embargada, olhar inquieto. Incerto sobre as palavras. Medo atroz. Coragem intensa. Voz, silêncio, conversa. Olhar fixo e calmo. Tranquilidade em meio à turbulência. Por querer... Estar ao lado, Caminhar contigo. Enfrentar o vazio Desse estranho universo. E seguir com amor Um infinito caminho.

Areia

À noite, na praia, Rolando sobre a areia, Eu vi o amor em meus braços, Encontrei a paz bem ao alcance da mão. Beijo tua boca De infinitos caminhos E me esqueço das luzes na cidade, Da lua escondida no céu, E da chuva que ameaça cair. Olho bem nos teus olhos. Brilham de fato, reais. Intensos e suaves Como a tua companhia E o que ela remete... Não temo o medo que me cerca. Gosto sem saber o motivo. Há tempos, em silêncio, Observava calado e esquecido. Hoje, te beijo sem temor, Esquecido do mundo lá fora, Embebido no teu fascínio, Amor leve e terno, doce e tranquilo.

Recluso Instante

Caem os pingos de chuva Como os beijos que ainda não ganhei Da tua boca ágil e intensa Num dia frio... Sinto o vento caminhando Sobre a casa - implacável Segue sem curvas Seu destino Incerto, decerto Um mistério sem fim. Enquanto sinto os efeitos da chuva Minha mente espera Pelo nosso reencontro... Pacientemente, espero o momento E sonho contigo, Meu doce alento, Enquanto observo as agruras do tempo, Sentado na cama, pensativo e calado.