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A Verdade

Não, a verdade não vence... É apenas uma brega escolha De bonitas palavras Escolhidas de modo conveniente Por quem de fato não se importa Com o destino de tanta gente... A vida cobra... Será mesmo? Ou seriam apenas esperanças Cômodas e indiferentes Frente à inação de quem Não consegue reagir às rasteiras recorrentes? A verdade, meus queridos, Nada vence... Sempre é contorcida, reeditada, encoberta, E vestida assim com o cinismo, Vagueia trôpega pela longa estrada...

Indiferente

Eu não sei onde está Em que esquina ficou Aquele amor tão sincero Que já não tenho certeza Se já conheci... Ásperos são os meus sentimentos Sobre muitas coisas externas a mim... Isso me assusta, fico inculcado, Talvez incerto, talvez covarde... O fato é que ando sozinho... Não me alongo em conversas com amigos. Alguém de fato os tem?... Contemplo as nuvens do dia claro, Admiro em silêncio o luar intenso E assim taciturno, evito gente, Evito desgastes.

Ela

Ah, se essa sereia Caísse na minha teia... Eu que sou tão quieto Calado, só observo E não sei dizer De forma objetiva O quanto essa mulher Com esse jeito Me enleia, cativa... Fogo, chama, labareda... Ela seria tudo isso E até mais em cada gesto A cada suspiro, transpiração... Ela é a poesia que falta Nas horas do meu dia Em cada estação...

História

Faço meus passos no conjunto de pedras... Batidas, esgarçadas, Firmemente ancoradas ao chão. Quanto passado em confronto Com tantos transeuntes indiferentes Que não percebem O passado em cada traço O açoite em cada beco A dor em cada espaço... E chove... Lavando o consciente esquecimento Irmão da indiferença com a qual vivemos Frente ao passado que se apresenta...

Plácido Rebuliço

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Plácidas águas, real sossego... Longe, Porém não tanto Os animais pastam sossegados... O dia está escuro. E faz calor... As nuvens anunciam A chuva que cairá a qualquer hora, Que não avisará quando chegar. O solo encharcado anuncia A vida escondida sob sua capa. E tudo nesse todo se completa, Como esse dia cinza Que mais tarde passará...

Para a Mulher Que Ainda Não Conheci

A chuva vem caindo serena... E o sereno me faz divagar... O que fui, quem eu sou, Já não são questionamentos importantes. Fui bordando algumas histórias Sempre acreditando Sempre esperando dar certo... E mesmo assim - após cada dor Uma reclusão... Após cada amor Uma desilusão Ou apenas o cansaço de tentar Mais uma vez... Não sei como será você, Quando vem, Onde está... Nem sei a sua estatura, Nem mesmo imaginar Como serão os olhos que um dia Poderão me hipnotizar... Mas sei que quando te ver, Quando enfim - te perceber Vou me redescobrir Ao encontrar com teu sorriso, Mil respostas hão de vir, O tempo novo soprará E um novo sol irá surgir.

Retrato

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O dia finda... Os raios solares Se ampliam e fecham o dia... É a hora das Ave Marias, Em que o passaredo sobrevoa, Alto e longe... E na lagoa Brilhando com o espectro solar Girinos vão nadando - e crescendo Vão dando cor e tom aos brejos próximos... Os mistos de floresta e campina Brilham com o verde intenso Desse verão Em que as águas caem tão generosas Que a vida sempre tenta surpreender.

Procuro

Procuro as palavras certas Para compor um poema Que adoce um pouco Esta chuvosa noite de carnaval... Procuro os versos precisos Que coexistam com os cantos das cigarras Com as rãs e sapos Em seus sons habituais E com a radiola Distante apenas meio quilômetro Tocando algum reggae que lembra a adolescência... Procuro um equilíbrio desconhecido Nos versos, na chuva, Na disputa entre o real e os sonhos Que a vida nos fornece E o tempo molda às escolhas Que vamos podendo fazer...

Não Sou

Não sou um poeta solar... Tampouco gosto de falar Sobre a luz refletindo nas vidas burguesas, Aboletadas em seus velhos códigos, Aprisionadas em vestes formais e sem graça. Não sou um poeta que faz Palavras resplandecerem... Vou costurando palavras, Movimentando os espaços Nos meus versos que não rimam, Leves, livres, que me afagam. Tampouco sou o poeta que faz A arte pela arte batida... Rebatizo solidões, Vou escavando em qualquer lembrança Qualquer sorriso, vagas sensações... Escrevo como quem ama Em meio ao turbilhão...

Silêncio na Cidade

Faz silêncio na cidade... Todos cansados? Todos com sono? Talvez nem tanto, Mas recolhidos das horas mornas, Quase todos encontram seu canto... Lá fora um frio... Junto à fome A sede de água limpa, potável... Quem está na rua, Quem não se esconde - Segue sem opção... Lá fora a vida é dura e áspera Todas as horas Para quem não pode escolher... Lá fora a poesia Prosaica e melancólica Da vida nitidamente oprimida Por tanta devoção ao mercado... Por tanta prisão a preceitos Que a cada dia mais miserável Torna essa sociedade que aceita...