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Mostrando postagens de junho, 2020

Rotina

À espera, em silêncio... É noite, os grilos cantam. A rua segue Com seus sons, passos, vozes. Uma noite de silêncio e suor.

Magnetismo

Hoje notei o teu rosto Em detalhes e modos. E é tão belo quanto os dias Que oscilam entre o sol e a chuva. Hoje fitei o teu jeito Simples, leve, seguro, Sorriso largo, olhar maduro, Que me deixou quieto, absorto, Quase mudo... Sem saber acertar as palavras. E assim, contemplando tua fronte, Quase não percebi o que estava diante Dos meus olhos E notei que estava sonhando Acordado, esperando Por um real encontro de nós dois. São Luís, 29 de junho de 2020.

Sem Certezas

Sem certezas Deixo o frio entrar debaixo da porta. É uma noite de silêncio... Hoje ouvi sua voz E parecia Que um cansaço aparente Se apossou, Impediu Atravessou Cortou as palavras. Sem certezas Busco vagas respostas Sabendo que não é possível Saber. Afinal Só o ritmo do que fala o coração Pode indicar De forma firme e resoluta O que não sei dizer.

Privataria

Privatizam tudo. Estradas. Portos. Aeroportos. Caminhos. Só não podem Privatizar os nossos sonhos. Privatizam a energia, A telefonia, A terra, A água, E quando puderem, O farão até com o ar. Só não podem privatizar Nossos tristes sorrisos Amarelos De quem se sente triste e cansado Até mesmo pra chorar. Não podem privatizar o futuro Que grita Assanha Assombra Assusta Esses donos de um tempo Que não lhes pertence Despidos de sua humanidade.

Saber

Saber escolher Entre as flores e a mão. É como se ao trafegar Se esquecesse do chão. É complexo como perceber Que na mão da contramão Quero a tua mão Junto à minha mão. É não ter pressa. Respeitar o tempo. Deixar que o momento Mostre o caminho. É tempo de sonhar... Mas com carinho, Com sutileza e espaços, Pois a vida lá fora Assusta, assunta, Muitas vezes cansa. Saber escolher é pensar E não se perder. Ao ver belos olhos Não ceder  A um medo insano, Suave e profano De quem corre para esquecer.

Dos Amores Virtuais

Eusébio olhou o céu azul, naquela manhã de terça poluída; impossível de se ver qualquer sinal de neblina, em meio a tanto concreto… A alma dele corria como o vento que encostava em sua janela; livre, rápida, solta demais. Tinha uma rotina comum. Lia, escrevia textos para horóscopo (só aí sua habilidade era valorizada, se bem que de forma anônima e oportunista), livros de ficção pouco lidos também. Curtia diversas postagens nas redes sociais. Adepto de selfies, apaixonado por fotos de praia. Ah, quanta beleza exibida naquelas imagens que se colocavam uma acima da outra. Admirava, porém raramente fazia algum comentário sobre. Evitava constrangimentos e mal entendidos. Não o fazia meramente por virtude, e sim por certezas. Tinha um amigo chamado Odésio. Este era a personificação perfeita do tempo. Não perdia tempo, marcava as meninas, puxava conversas, sempre muito específicas. Sabia qual o seu objetivo mais claro: não se apegar a ninguém, e ter várias aos seus pés. Apesar dessas sutis di...

Quase

Quase instante... Quase história... Quase lembranças... Quase memória. Me habituei ao quase. Não deveria. Quase não aceito Quase não acerto Quase estou certo Quase me queixo E assim, de quase em quase, Quase não mudaria. Porém, com tanto quase, Cansei, mudei, E fui guardando o quase em velhas gavetas.

Ops

São tantas palavras. Longas, múltiplas, soterradas Quando bastaria o silêncio, O som da tua respiração, Das cigarras, da noite... Me percebo abrindo caminhos. Sem pressa, mas com direção. Será que o traçado destino Faz ouvir ao coração? Eis o que a noite não diz... Apenas os sons dos trovões Cortam o tempo instável, incerto.

Paz

Gosto de não ser objetivo, Tal qual muitos versos que escrevo. Diligentemente os dias tem passado, E ainda parece haver Tanta coisa escondida Nas palavras que recebo. E mesmo com todo o cansaço, Abro os braços para a incerteza, Confiante sem motivo, Calmo com essa chuva que cai...

Recorte de Uma Manhã

Há muito as flores caem... Como me calo Quando tudo o que devia Era falar Sem pressa ou medo. Há qualquer coisa Perdida no ar Firme como um espinho A me atingir, cutucar Nessa manhã de junho. Não é de dor que falo... E sim uma agitação Que não se expõe e mesmo assim Aponta a possível direção Onde os sonhos possam   [Ser mais coloridos Em que seja esquecida toda indecisão. Observo a planta Verde, fixa, imóvel E deixo as flores caírem Ali, na escada de concreto Numa azul manhã de junho...

Viva

Viva o seu amor Se ele for sincero, verdadeiro. Olhe nos seus olhos, beije-a, Demonstre. Seja. Mas não siga as propagandas Que mentem, enganam E fazem de idiotas a massa que sempre Vive ou tenta viver O amor sem meras quimeras.

Feijão

Na minha geladeira há um pote de sorvete. Vou em sua direção. Açúcar gelado, cremoso e pintado. É nisso que penso. E no entanto, o que encontro? Feijão cozido, Preparado, temperado, transformado. O alimento que sustenta, aumenta, aguenta Essa rotina de caos. Feijão, sinal de vida. Certeza de breves felicidades. Tão bom quantos sorrisos sinceros, Poético e romântico à parte...

A Cidade Encantada

Lá, ao longe, Na cidade encantada, Do outro lado do mar. A cidade que vive Nas lembranças das noites de luar. Onde a história é clemente, Sinuosa, preenchida de silêncios, Dores, imersas Na longa visão do Oceano. É lá dentro que encontro um lugar de pouso. Calo, reflito, repito a contemplação. Mesmo que não demonstrado O quanto ela é importante Nesse passado presente Que me constrói a todo instante.

Dispersas

Dispersas Seguiram seus rumos Enquanto fiquei na janela Observando seus passos tímidos. Por elas Guardei espaços Tentei criar histórias Chorei, sorri, amei. Hoje já não faz sentido Quando aceno para algumas que passam Vão e vem Revisitam Assustam, conversam dispersas. Me mantenho calmo. São só datas, lembranças. Histórias que recompõem Meu caminho até aqui.

Som e Silêncio

Silêncio. Remoto barulho. Tráfego distante. É noite escura. São os olhos direcionados ao teto. É o som dos gatos comendo a ração E de cães lá fora Latindo sem cessar. É o tempo de trégua da chuva. É olhar as nuvens carregadas. E sonhos embaçados, Vilipendiados Nesses tempos turvos.

Confissão

Suspeito que há tempos Venho andando blasé... Os olhos voltados pro chão, A mente sem paradeiro. O olhar rápido e fugidio. A calma sem grandes expansões. Talvez eu já não saiba o caminho Dos velhos exageros tão batidos, Das frases comuns Com que todos se comunicam. Talvez por isso o meu amor Maior e sincero Pelos gatos... Tanta vontade presa, Quanta indiferença viva Enquanto vou descobrindo As várias nuances De ser e estar Livre como o vento Mesmo que a cada dia Uma nova dúvida Refaça sempre A minha continua capacidade De não perceber Os olhares e gestos, Não me deixem ouvir Tantas vozes  Com tantos rostos dispersos Nas ruas dessa cidade...

Imprecisão

A vida tão límpida, Rara e imprecisa. Parece que está tudo bem Mas estamos todos com medo Fingindo que temos certezas Ansiando por amanhãs Amargurados, quase estáticos. Não sei se ainda há amor Nos gestos do cotidiano. Mas o medo Garanto Em grandes e incríveis parcelas. E assim sem quimeras Só estamos Existindo como se nada Houvesse. É o novo normal Ou o novo conformismo De aceitar o mundo tal qual é Com um novo pretexto?