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Mostrando postagens de maio, 2022

Ploc

Ploc... Ploc... Ploc... Ploc. Chove tão intensamente Quanto o amor verdadeiro Que dura uma estação. Ploc... Ploc... Ploc... Ploc. É o temporal que vem vindo. É a chuva que vai lavando As velhas mágoas refeitas. É a força da água, a poesia. O som do fim da estação É o amor submerso Soterrado sob algum verso Sem fé, sem jeito, Anunciando o desencanto e a solidão.

Dicotomia

O luxo ignora o lixo... Gente com fome Catando um trocado Na lata, no colchão... Crianças com fome Crianças sem sonhos Adultos sem chances Miséria grassando. Luxo que é lixo... Obra de quem ignora Quem finge não conhecer A fome, a miséria, o porrete Da polícia em tristes figuras Sem teto nem rumo, Já sem passado ou presente, Vivendo sem nome e sonhos...

FRAGMENTOS

  Aonde meus passos me levaram... Já perdi o controle Ou nunca tentei. Já ouvi infinitas histórias, Combinei tantas, tantas memórias Em um mesmo balaio Que depois já não sabia Onde havia estado... Já perdi tantos, tantos amores Que eu criei bem sozinho. Já jurei Não mais escrever cartas Cartas longas de amor E me vi sempre no outro dia Procurando novas versões Adequando textos à paixões Sussurrando em cada frase, poesia. E hoje, ainda novo Pareço tão desiludido... Perdi uma parte de quem fui Em algum lugar do caminho. E sozinho, meio apartado de mim, Sigo firme, suave, sozinho.

Possibilidade

Talvez eu te ame... Em minha mente inconstante, Vez por outra assoma A tua idéia, um vago lembrar. E para não te incomodar, Faço pergunta a um e a outro, E todo mundo sabe um pouco Sobre uma mulher tão singular. Nunca passamos tardes juntos, Tampouco transbordamos em poesia... Nunca te beijei E tampouco te enlacei Sequer prometi A lua ou qualquer outro disparate. Somos amigos apenas... Amigos distantes Reais, inconstantes   (Não daqueles que olham a lua       E partilham impressões.) E é nessa falta de obviedade Nesse jeito torto ou sincero Sem cobranças, sem maldade Onde talvez se esconda o amor...

Traços de Sonhos

Sonhei essa tarde. A chuva forte embalou o sono. Chovia aqui, chovia o sonho. Eu vi um traço da mulher dos meus sonhos Se desenhando à sombra anil... Foi tão intenso. Foi tão real. Foi tudo enxuto, tão irreal O encontrar esse perfil Da mulher que habita o ideal, A vaga idéia que se esconde inconsciente. E, após duas horas, Ao despertar, Já não sabia A forma, o jeito, como vivia A sombra da idéia A solitária imagem Da mulher ideal dos meus sonhos...

A Mãe

Ela acorda todo dia Às quatro ou cinco. Faz o café, acorda os filhos, Vai ao trabalho, À labuta de todo dia, Imaginando o que terá de comer no mês. Ela segura as despesas, Corta os gastos Consigo mesma, Com os seus sonhos Sempre adiados... Ela é sossego, amor E também sacrifício... Ela sofre ao mesmo tempo Que ri com amor. Os filhos crescem E aprendem que a vida é dura, Mas que sempre vale a pena Sonhar um pouco mais. Ela é mãe, Ela é filha, Quem sabe avó. Ela é amor e poesia De uma vez só. Qualquer gesto de gratidão e carinho Não passa de algo mínimo Frente a tudo que ela vive Como ela se porta Como ela se importa Com os filhos Frutos do seu amor imponderável.

As Questões do Amor

Onde habita o amor? Aquele que faz a gente sonhar Que faz o tempo tão curto Frente a tantos desejos, Que se perde em tantos olhares, Que não se esconde E se deixa tocar Sincero como um beijo... Onde está aquele amor? Das descobertas diárias Do abraço apertado Que antecipa a saudade E a expectativa do reencontro... Onde se esconde o tal amor? Em quais locais ele se guarda Logo após a decepção, O corte abrupto A reversão dos sonhos bonitos? Onde cabe esse tal de amor? E onde me encontro perante ele? Se dele me perdi, Não sei como voltar. Acho até que esqueci Se ainda sei amar.

1° de Maio

Tanta luta Tanto sangue Já jorrou Quantas vidas se perderam Quantos sonhos esquecidos Pra que venham vagabundos A serviço dos burgueses, (Com pena de quem nos oprime) Pedindo a ditadura Que não a do proletariado Para que o explorado Não solte sequer um pio. Na pele, o arrepio Pelos direitos perdidos Em grandes negociatas Conduzidas por velhos sindicalistas burocratas Dizendo sim à vontade do patrão... Hoje vem o cidadão Sem a vaga consciência E reverbera com displicência Que tudo foi sempre assim. Aceita que, na história, O neoliberalismo é o fim E condena tanta gente Com o medo inconsequente A penarem, quase indigentes, Pela fome, carestia, falta de moradia, E desemprego...