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Mostrando postagens de dezembro, 2019

Kiddy

Quando tudo parece desmoronar, Um sorriso se impõe. A dor dá lugar à força, Os dias cinzas ficam azuis. É pelo brilho do olhar Que a gente percebe a garra dessa mulher. Tão menina, mas já adulta. Tão mulher, porém menina. Cheia de sonhos e lutas. Mágoas e dias felizes. É um exemplo quase silencioso Em meio a tantas multidões; Cansada das desilusões, À procura de novos sons e certezas Pra seguir sempre mais leve - e feliz.

Solitude (Solidão?)

À noite, calado, olhando pro nada, Divago, não fujo, escuto, percebo, Corro e não esqueço De tudo que já fiz. Lembro e me assusto Das velhas histórias, Dos meus antigos disparates, O medo ainda atual De falar e não ser entendido, Sofrer e não ser consolado. Voa a madrugada... Mas tomo a decisão. Não vou voltar a agir Feito um bobo, que puxa assunto, Revira meio mundo,  Como quando era bem terno. Desprezos são comuns, E não quero sofrer Por quem não quer Nem mesmo me falar Um bom dia ou boa noite qualquer.

Hipocrisia

A fome assola e assusta Nas ruas de toda a cidade. Pessoas pedindo moedas Por não ter nada pra comer. A nossa miséria é exposta Mas fingimos que não existe. Preferimos o tempo inconstante De nossa pressa interminável Pra sermos hipócritas úteis Que não lutam por nada E fingir que sofremos sozinhos. Enquanto quem realmente controla Esse sistema injusto e contrário Sorri e lucra bilhões, com a dor, a vida e a paisagem, Esquecido que somos iguais, Sem remorsos, apagado, esquecido De onde vem, pra onde vai: O que o faz igual a bilhões de outros homens.

Apenas a solidão

Ouço a solidão nas ruas Com seus múltiplos passos Diversos, dispersos, desencontrados. Segue passos incertos Quem não sabe ainda agora o que é. Que se assusta com definições e acasos, E navega sobre medos, Sem coragem pra mudar o rumo, Esquecidos de tudo com o cotidiano, Misto de dor - e ilusão. E nada digo, evito ao máximo. Observo e calo... Os dias quase azuis e as noites poluídas De sons, fumaça e atritos.

Narf

Se tens coragem, vens. Quando puderes, se o instante Permitir Ou o momento te pedir, Vens... Eu sei que há dias nos quais as palavras Assomam e fogem, Em outros - machucam e afastam, Ou simplesmente somem de vista. Se sentires um peso ao falar comigo, Não tenha medo... Sou silêncio e solidão, Mas sou também calma pensada E vivida. Se a poesia no instante Ou o concreto da vida Assim te indicarem, Solte os receios, Caminha tranquila, sê feliz... Caminho em silêncio, Mas, quando puderes e se assim quiser, vens.

Vicissitudes

As nuvens pesadas desafiam o dia que seria azul… A noite cai como palavras soltas, sem cuidado, Ferinas sem objetivo, cruéis em sua sutileza. E agora que observo o tempo instável, Não me assustam as ameaças de chuva iminente. Já fui pastor; Enfrentei outras chuvas, Cruzei o caminho das serpentes, Caminhei por campos alagados, Trilhei por florestas e ilhas. Não me assustam algumas palavras; Sou mais forte do que o silêncio e o medo, Enquanto o vento atravessa os instantes E assessora a passagem do tempo, Combustível indelével da vida.

Tic Tac

Tic Tac... As horas passam à espreita De tua decisão incerta, Deslocado pela expectativa Duma resposta Que caminha com as horas E o silêncio do tempo. Tic Tac... Aproveito as horas E fujo de mim Enquanto vagamente observo O nada em tudo ao redor. Tic Tac... E fico à espera de uma resposta. Sem pressa, distante, calado... Voando como as palavras Ao longo de um texto corrido.

Perspectiva Particular

Todos os olhos caminham Na busca de sua direção perfeita, O objeto com que sonham Ou esperam às vezes tão rápido, Outras sem pressa. Os dias afastam as arestas Que a vida deixou por fazer. Assusto o tempo e afago As horas com mil pensamentos. Relíquias dispersas na memória Se agrupam e afastam, Puxam e empurram, Fogem, deslizam Enquanto olho o espelho E assusto o medo, Deixando o efêmero instante Ser eterno... Sem quimeras e excessos, Apenas o silêncio oportuno.

Falsos e Fr(ei)ouxos

Combater o crime, é o que dizem eles. Derrotamos o inimigo, também afirmam. Gritam, dizendo que são nossos amigos, Mas há tempos nos querem presos e mortos. Populistas que dizem lutar pelo nosso direito, Não lutam por nada além da manutenção de seus mandatos, Numa moda parlamentar estranha, Avessa a esse perdido país... Dizem combater a miséria Caminhando ao lado de quem a propaga. Dizem defender o meio ambiente, Mas aceitam a destruição sempre crescente Por causa de um tal desen volvimento. Choram lágrimas de crocodilo, Nos fazendo crer que são diferentes, Mas fazem parte do mesmo esquema, Na engrenagem do sistema São frouxos, falsos, covardes. E assim segue a nação... Aos poucos, até o ar terá imposto, Mas os nossos heróis de cada dia Sempre alardeiam vitórias Que em nada ajudam As vidas de quem já sofre e pouco tem.

Um quadro

As folhas caem lá fora sobre o telhado. O vento segue um compasso lento, marcado... As horas caminham mornas Na noite quase banhada em profundo silêncio. Os olhos voltados em direção ao telhado. O tempo esquecido e as palavras medidas. Os medos medidos, Os atos regrados, As horas contidas... As folhas caem lá fora. Gatos correm nos telhados. O vento lento, calado... As horas quietas, A noite segue lá fora, Enquanto daqui olho o tempo...

A Boca da Noite

Embebido pelos sons e luzes, Caminhei solitário e quieto. Avistei as solidões na multidão, Contemplando mentiras recontadas. A lua se escondeu nessa noite De nuvens neutras e nenhum brilho, Afastada dos sonhos e vagos sinais, Na medida do tempo, sem marcha ou freio... Voam as horas, e a noite densa e repleta De cores e ilusões É apenas mais uma noite Com novas luzes e sonhos velhos, Repleta de neutralidade e silêncio interno.

Pega

"Pega ladrão": era um grito embutido na rua. Homem negro correndo, Pacotinho na mão. A fome no olhar, Desespero correndo junto. Atrás, um trabalhador Incapaz de ver a injustiça no fato Culpando quem teve a vida roubada, Anulada, esquecida, cansada de ser. O ladrão está no patrão que não paga O salário e os impostos, E que chora uma pobreza desconhecida, Advogando a sua hipocrisia Defendendo uma meritocracia Que investe na morte da cor e da miséria Por meio da violência e do silêncio, A ordem do mais forte Que assusta, afasta e constrói a sorte De quantos não tem chance de sonhar. O mal do estado omisso e cruel É o servir a fúria e a incompreensão De quem defende os ladrões de sonhos e histórias E julga, acorrenta e mata Quem apenas deseja um pedaço de pão Em meio à essa vida de sonhos e anseios roubados Desamparados - sem laços, amigos ou chão...

A Hora

O silêncio e a contemplação dão espaço, Seguem incertos - sinuosos caminhos. É um tempo novo de sinceros afetos, De entregas sutis e graduais, Das escolhas acertadas E gestos mínimos… É chegada a hora dos afetos, Dos detalhes e da vida em movimento, Da calma para além da contemplação, Dos sorrisos para além das bocas, Da sinceridade na entrega, Nos olhares leves e discretos… É chegada a hora de ver Para além do julgamento Dos que nada captam ou sentem, Se abstém e afastam, Acusam e escondem Seus medos e fraquezas. É chegada a hora dos afetos No coração de quem se permite ser apenas… Quem olha nos olhos e divaga Sobre um horizonte infinito de incertezas.